Você sabe o que é resiliência? Você é resiliente?

A Psicologia é uma ciência muito interessante e por isso alguns de seus termos passam a ser de domínio público e não mais exclusivos dessa classe profissional. Todos nós já usamos termos da psicologia e psicanálise, como negação e ato falho, por exemplo. As vezes sem nem saber que essa era a origem. Alguns termos estão até um pouco “alterados”, como síndrome de perseguição (delírio persecutório), recalque (que não é inveja) e antissocial (fóbico social). Recentemente um termo usado na psicologia vem sendo muito falado nos mais diversos ambientes, é a “resiliência”. Como consequência disso, muitas pessoas me perguntam “o que raios é uma pessoa resiliente? ” Bom, aproveitando que estamos em pleno Setembro Amarelo e o mês tem tudo a ver com resiliência, é isso que resolvi explicar no post de hoje.

 

RESILIÊNCIA

No dicionário a definição de resiliência é a “propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica”. Esse conceito, originário da física, foi emprestado à psicologia. Na Psicologia faz referência a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar a situações de adversidade. A pessoa não pode, como na física, absorver um evento estressor e voltar exatamente à sua forma anterior, ela cresce, se desenvolve, amadurece, mas algumas pessoas tem uma capacidade de recuperação e adaptação muito desenvolvida, que é o que nos referimos ao falar de resiliência.

            A etimologia da palavra é inglesa, “resilience”, que significa elasticidade. A Psicologia, depois de adotar o termo, começou a estudar a resiliência – principalmente na infância – na tentativa de entender como crianças, adolescentes e adultos são capazes de superar adversidades que são consideradas danosas ao desenvolvimento e a saúde emocional, como por exemplo ser vítima de violência física ou sexual, violência intrafamiliar, morte de um dos pais, consequências de catástrofe natural e etc.

            Então, entendemos a resiliência como uma capacidade – adquirida – de lidar com problemas ou obstáculos sem entrar em surto psicológico, dando condições para enfrentar e superar essas adversidades.

 

HISTÓRIA DO ESTUDO DA RESILIÊNCIA

            Há algumas décadas atrás, a psicopatologia estava em evolução e através de estudos focados nessa área os pesquisadores se depararam com um grupo de crianças que não desenvolvia problemas psicológicos e não tinham problemas de adaptação, apesar de viverem uma realidade em que isso era esperado.

            A primeira compreensão dos estudiosos foi que essas crianças eram positivamente adaptáveis por serem “invulneráveis”’, por não serem afetadas pelo estresse e adversidade. Hoje compreendemos o erro dessa afirmação, uma pessoa resiliente é sim afetada pelo evento estressor, mas é capaz de superá-lo e sair fortalecido ao invés de debilitado. Outra compreensão que se mostrou errada com o tempo é que a invulnerabilidade implicava um traço pessoal, intrínseco. Hoje sabemos que a resiliência é um processo que pode ser desenvolvido e promovido.

            As pesquisas então se voltaram para a busca em compreender o que distingue, dentre as que vivem em risco social, as crianças que se adaptam positivamente das que não se adaptam. A partir desse tipo de pesquisa começamos a olhar para fatores de risco e de proteção no desenvolvimento da resiliência. Um marco dessa área de estudos foi o estudo de Werner e Smith, publicado em 1992. Eles realizaram um estudo longitudinal no qual foram estudadas 505 pessoas, durante nada menos que 32 anos. Eles acompanharam essas pessoas desde o período pré-natal, em que ainda estavam em gestação, até a vida adulta. O estudo identificou os fatores que diferenciavam os participantes que se adaptavam positivamente daqueles que assumiam condutas de risco, mesmo vivendo em situações adversas similares.

            Hoje, muitos autores postulam que devemos ter cuidado para não reproduzir dados antigos, pois quando falamos de resiliência como uma invulnerabilidade, como algo inerente a alguns indivíduos, estamos dizendo que apenas os “sortudos” ou “privilegiados” possuem essa característica, quando na verdade é uma característica adquirida através de fatores protetores do meio em que a pessoa está inserida. Vou falar mais sobre isso adiante.

 

RESILIÊNCIA NOS DIAS DE HOJE

Atualmente a resiliência é compreendida como um processo dinâmico em que as influências, tanto do indivíduo quanto do ambiente, atuam permitindo a pessoa a se adaptar apesar da adversidade. Portanto, entendemos que o desenvolvimento da resiliência está integrado com todos os aspectos da vida da pessoa, como a época em que vive, suas relações sociais, os ambientes onde convive e frequenta e etc. Porém, vale ressaltar que não há uma correlação de dependência com a existência ou não desses fatores em si, apenas com a qualidade deles. A qualidade de desenvolvimento que possibilita a emersão da resiliência não está ligada ao contexto por si só, mas sim a forma como esse contexto influência na vida, como fator de risco ou de proteção. Um desenvolvimento saudável depende da qualidade das relações emocionais e sociais, da presença da afetividade e da reciprocidade.

            Se houve a presença de interações marcadas por sentimentos afetivos positivos e reciprocidade, seja na família, na escola ou em outra instituição/ciclo social, haverá grandes chances de um desenvolvimento psicológico saudável, que acionará os processos de resiliência que favorecem a melhoria da qualidade de vida, da saúde e da adaptação.

            Reafirmo que a resiliência não é uma característica ou traço individual, mas um processo psicológico. Portanto não é fixa, pode aparecer e desaparecer em determinados momentos da vida, assim como pode estar presente em algumas áreas da vida e ausente em outras.

 

FATORES DE RISCO E PROTEÇÃO

Como eu já disse acima, alguns fatores são de risco e outros de proteção para o desenvolvimento saudável da pessoa e da resiliência.

FATORES DE RISCO

Os Fatores de Risco são relacionados aos eventos negativos e estressores da vida. Alguns comuns na infância são: divórcio dos pais, abuso físico/sexual, pobreza ou empobrecimento, desastres e catástrofes naturais e até guerras e outras formas de trauma. É claro que esses não são eventos estressores estáticos, isto é, a presença de um deles não significa certeza de consequências indesejáveis, porém são fatores de risco relevantes.

FATORES DE PROTEÇÃO

Como Fatores de Proteção posso citar aqueles que são essenciais não só para o desenvolvimento da resiliência, mas do ser humano saudável em si. São eles: autonomia, autoestima, bem-estar (sendo esse subjetivo, cada pessoa tem aquilo que considera bem-estar), orientação social positiva, competência emocional, representação de afeto positivo e inteligência, rede de apoio social que incentive a pessoa a lidar com as circunstancias da vida, harmonia familiar, ausência de negligencia dos cuidadores, possibilidade e espaço para administração de conflitos, ter ao menos um adulto que demonstre verdadeiro interesse na criança, presença de laços afetivos (tanto no contexto familiar quanto em outros), ter suporte emocional em momentos de estresse e etc. É importante lembrar que por mais que a família tenha um papel muito importante, ela não é a única, o suporte social pode vir da escola, do trabalho, de serviços de saúde e outros.

 

CARACTERÍSTICAS DO RESILIENTE

Mas, como é uma pessoa resiliente? O que possibilita a ela lidar tão bem com conflitos? Alguns estudos apontam alguns fatores que são próprios do resiliente. Vamos aos principais:

  • Administração de Emoções: Habilidade de se manter sereno diante de situações estressoras, não desgastando emocionalmente a si e a aqueles com quem convive.
  • Controle dos Impulsos: Capacidade de regular a intensidade dos impulsos que naturalmente aparecerão, não se deixando levar pela situação ou emoção. Isso garante a autorregularão das emoções e a possibilidade de dar a força necessária a elas, tornando-se mais eficiente frente a situação adversa.
  • Otimismo: Acreditar que as coisas podem melhorar. Há um investimento na esperança e uma convicção na capacidade de controlar o destino da própria vida. Isso é benéfico pois proporciona pró atividade, auto eficácia e competência social.
  • Análise do Ambiente: Saber identificar as causas dos problemas, de forma a se colocar na posição mais segura possível, não absorvendo danos emocionais de grande impacto.
  • Empatia: Capacidade de compreender estados psicológicos e emocionais do outro.
  • Auto eficácia: Acreditar na própria capacidade de obter resultados necessários ou desejados. Essencial para a construção da autoconfiança, pró atividade e capacidade de solução de problemas.
  • Alcance de Pessoas: Capacidade de se vincular emocional e socialmente a outras pessoas, de forma a tornar possível apoio para solucionar adversidades vivenciadas.

 

Então, de forma básica isso é a resiliência, como ela é desenvolvida e as características de uma pessoa resiliente. Agora você não vai mais ficar perdido quando alguém usar o termo por aí 😉

 

 

REFERÊNCIAS
BONANNO, George A. Loss, trauma, and human resilience: have we underestimated the human capacity to thrive after extremely aversive events?. American psychologist, v. 59, n. 1, p. 20, 2004.
INFANTE, Francisca. A resiliência como processo: uma revisão da literatura recente. Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas, p. 23-38, 2005.
LUTHAR, Suniya S. Resilience in development: A synthesis of research across five decades. 2006.
MASTEN, Ann S. Resilience in individual development: Successful adaptation despite risk and adversity. 1994.
POLETTO, Michele; KOLLER, Sílvia Helena. Contextos ecológicos: promotores de resiliência, fatores de risco e de proteção. Estudos de psicologia, v. 25, n. 3, p. 405-416, 2008.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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