Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo

Todos nós temos algum tipo de restrição alimentar, mesmo aquele que menos tem problemas com isso, ainda tem alguma coisinha que não gosta de comer. Isso é normal, alguns gostam de rúcula enquanto outros não, alguns gostam de batatas e outros não e alguns seguem dietas vegetarianas ou veganas e outros não. Não há problema em nenhum desses casos. O problema é quando a restrição alimentar se torna tamanha que afeta negativamente a vida do indivíduo. Estamos falando do Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo.

Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE)

            Antes conhecido como alimentação seletiva ou transtorno alimentar seletivo esse transtorno é definido no DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V) como comportamento de esquiva ou restrição na ingestão alimentar. Ou seja, há uma perturbação alimentar causada pela falta de interesse e esquiva a alimentos. Isso causa ao paciente deficiência nutricional grave, dependência dos poucos alimentos que consome, dependência de suplementos alimentares e vitamínicos e interferência na vida psíquica e social.

transtorno alimentar restritivo evitativo-post1Não há uma regra, mas os alimentos consumidos por pessoas que sofrem desse transtorno costumam ser industrializados, processados ou extremos de doce ou salgado. Isso mostra a gravidade da situação, pois são alimentos nada saudáveis que causam diversos prejuízos à saúde. Além disso, há a deficiência nutricional e vitamínica que o paciente sofre, sendo essas condições graves que devem ser acompanhadas. Quanto a questão psicossocial, há prejuízos. Acontece que a pessoa passa a ter vergonha de sua alimentação limitada ou não consegue encontrar uma comida que consiga comer em qualquer lugar. Com isso, começa a se isolar, preferindo comer sozinha e evitar eventos sociais que envolvam alimentação – que convenhamos, é a maioria deles. Por fim, esse afastamento social prejudica a parte psíquica e emocional da pessoa, que passa a sofrer com esse isolamento. Além de vivenciar grande estresse e vergonha em situações em que é forçada a se alimentar na frente dos outros.

Causas

Ainda há muita controvérsia a respeito das causas desse distúrbio, não havendo um consenso. Alguns estudiosos acreditam que se relacione às papilas super aguçadas de pessoas que sofrem desse transtorno, tornando o sabor de todos os alimentos muito intensificado e virando uma vivência ruim. Porém o argumento se complica quando se pensa na questão da escolha de alimentos que esses indivíduos fazem, pois são alimentos de sabores e temperos muito fortes até mesmo para pessoa sem papilas aguçadas. Então outros estudiosos vêm na contramão, afirmando que isso é um fenômeno herdeiro da alimentação precária dos dias de hoje. Eles afirmam que desde pequenos somos bombardeados de comidas processadas e industrializadas com sabores fortes, muito açúcar e muito sal. Com isso nossa língua e as papilas ficam “viciadas” e não conseguem apreciar o sabor de alimentos mais leves, como saladas, frutas ou vegetais.

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            Com relação ao lado psicológico da coisa, também há mais de uma hipótese. Há grande parte dos estudiosos dizendo que o transtorno está correlacionado à relação sensorial que a pessoa tem com a comida. Ou seja, a cor, textura, cheiro e aspecto têm para essa pessoa um impacto tão negativo que ela não suporta ingerir esse alimento. Por fim, há os estudiosos que afirmam ser uma associação entre alimentos e emoções negativas. Essa associação pode vir de um mal-estar decorrente da comida, como enjoo, vômito, engasgo e outros que gerariam um tipo de “trauma na pessoa”. Essa correlação negativa pode vir ainda de vivências que a pessoa teve. Por exemplo, quando criança os pais eram muito rígidos e forçavam a ingestão de alimentos indesejados sob forma de ameaça ou até famílias que brigam muito durante a hora das refeições, fazendo com que haja certa “repulsa” a essa atividade, devido ao abalo emocional. Então a mente relaciona esses choques ao alimento em si, fazendo o indivíduo o repelir.

Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo-post2Apesar de não haver um consenso, é provável que a razão causadora do transtorno seja mutável de pessoa para pessoa e envolva mais de uma dessas teorias.

            Vale dizer que esse transtorno não se relaciona com a anorexia ou a bulimia nervosa. Isso porque não há uma privação do alimento mesmo com vontade de ingeri-lo, há grande repulsa pelos alimentos, restringindo-se há uma quantidade ínfima de comidas que podem ser ingeridas (normalmente por volta de 10 alimentos). Além disso, na anorexia e na bulimia há a preocupação com a imagem e o ganho de peso, características ausentes no transtorno alimentar restritivo evitativo.

Tem tratamento?

            A notícia boa é que sim, isso pode ser tratado. Inclusive DEVE ser tratado, pois a pessoa não alcançara saúde evitando alimentos saudáveis e com isso terá cada vez mais problemas.Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo-post4

            O tratamento, como na maioria dos transtornos alimentares, deve ser multiprofissional. Deve envolver um médico, um psicólogo, um nutricionista e, se necessário, um psiquiatra. Assim, cada um desses profissionais conseguirá acompanhar o paciente e ajudá-lo a lidar com todos os aspectos do transtorno (psíquico, físico, emocional e alimentar).

 

REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 5a. ed, 2014.

Andrade TM, Moraes DEB, Campos ALR, Lopez FA. Crianças que não comem: um estudo psicológico da queixa materna. Rev Paul Pediatr 2002.

Kachani, Adriana Trejger, et al. “Seletividade alimentar da criança.” Pediatria27.1, 2005.

Manikan R; Perman JA. Pediatric feeding disorders. J Clin Gastroenterol, 2000.

Nicholls, Dasha, et al. “Selective eating: symptom, disorder or normal variant.” Clinical Child Psychology and Psychiatry 2001.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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