Sonambulismo Alimentar: O Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono

Sabemos que existem distúrbios alimentares relacionados ao período da noite. Porém, há um tipo de transtorno que não se relaciona com a hora do dia, mas sim com o fato de dormir. O Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono faz com que a pessoa, em um tipo de sonambulismo, coma muito e não se lembre. Entenda melhor no post de hoje.

 

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Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono

O Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono (DARS) é uma mistura de transtorno alimentar e do sono. Ele se caracteriza por episódios involuntários de comer e/ou beber durante o sono, isto é, com a pessoa ainda dormindo, sem lembrança do ocorrido no dia posterior. É considerado por muitos autores como uma forma atípica de sonambulismo, uma vez que é uma forma de parassonia.

Parassonias são distúrbios do sono caracterizados por anormalidade durante o sono, causando interrupção no repouso e gerando sonolência, cansaço, menor desempenho físico e menor desempenho cognitivo durante o dia. O tipo mais famoso de parassonia é o sonambulismo, mas existem outros menos conhecidos como o despertar confusional (acordar confuso), o terror noturno (expressões de terror e medo sem acordar), bruxismo (ranger os dentes), síndrome das pernas inquietas (mexer as pernas ou os pés durante o sono), sonillóquio (falar dormindo), enurese (urinar involuntariamente durante o sono), paralisia noturna (acordar parcialmente e não conseguir se mover) e, é claro, o distúrbio alimentar sobre o qual vamos falar hoje.

É importante entendermos que o DARS é uma parassonia, pois é exatamente isso que o difere da Síndrome do Comer Noturno, em que a pessoa também come durante a noite, mas está completamente desperta e consciente da ingestão de alimentos. Assim sendo, o Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono não tem relação com o período da noite (como o comer noturno), mas sim com qualquer período do dia em que a pessoa estiver dormindo.

Os episódios são rápidos, duram cerca de 10 minutos, mas isso é tempo mais do que suficiente para uma visita a cozinha afim de levar guloseimas para a cama, onde a ingestão acontece. Isso tudo acontece sem que a pessoa esteja consciente ou controle suas ações, uma vez que está apenas parcialmente acordada.

Durante esses episódios, pode ser difícil acordar a pessoa durante o ato de comer, e tentar impedi-la muitas vezes gera raiva e resistência. É comum que a pessoa faça combinações estranhas de alimentos, que coma alimentos inadequados como carne cura ou alimentos para animais, ou que chegue até a ingerir produtos não comestíveis, como produtos de limpeza ou cosméticos, podendo levar a uma possível intoxicação.

Ao acordar efetivamente a pessoa não se lembrará do ocorrido. Em alguns casos a pessoa se lembra vagamente do ocorrido, mas em outros não se lembra de absolutamente nada e só percebe que comeu ao acordar e se ver cercada de embalagens ou suja de algum alimento.

 

SINTOMAS E CONSEQUÊNCIAS

            Os principais sintomas que podem indicar a doença são:

  • Relevante ganho de peso em um curto período de tempo
  • Dificuldade para perder peso mesmo tendo uma rotina saudável de alimentação e exercício físico
  • Sentir-se cansado mesmo depois de horas de sono
  • Falta de energia durante o dia
  • Acordar com distensão abdominal
  • Acordar com falta de apetite
  • Acordar com pratos ou embalagens ao seu redor sem se lembrar de leva-los
  • Acordar com o corpo, roupa ou roupa de cama sujos de algum alimento
  • Notar sumiço de alguns alimentos da cozinha e/ou geladeira sem se lembrar de tê-los consumido.

Esse distúrbio obviamente prejudica muito a qualidade do sono, podendo a consequência disso interferir negativamente em diversos aspectos da vida da pessoa. Além disso, há uma grande relação com problemas de saúde relacionados a má alimentação, como obesidade e diabetes. Empobrecendo assim a qualidade de vida.

Durante o episódio, a pessoa pode se colocar em risco ao ingerir alimentos estragados, crus ou produtos não comestíveis, intoxicando-se. Há risco ainda de ferimento ou queimadura ao tentar preparar algum alimento utilizando utensílios como garfo e faca e fogão, por exemplo. Ainda por isso, é muito comum pessoas com esse distúrbio causarem incêndios domiciliares sem notar (e normalmente no período da noite, ao dormir), colocando vida de todos na casa em risco.

Casos mais graves podem desencadear forte depressão, por conta do sentimento de vergonha e falta de controle alimentar. Por último, mas não menos importante, pode dar início a outro transtorno alimentar como bulimia ou anorexia, com a pessoa evitando comer durante o dia e usando métodos compensatórios (como remédios ou exercícios físicos excessivos), na tentativa de driblar o ganho de peso.

 

CASO CLÍNICO

Em meu consultório, já atendi uma paciente com o Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono. A paciente C., que concordou que eu exemplificasse o seu caso (ainda assim preferi proteger sua identidade), estava na casa dos 20 anos de idade e disse sempre sofrer com o que chamava de sonambulismo alimentar. Brigava com familiares por não acreditar que havia comido tantos doces durante a madrugada e não se lembrar, alegando que eles colocavam as embalagens vazias lá para pregar uma peça nela.

Porém, nos últimos tempos as coisas estavam se agravando. C. chegou a cortar a mão com uma faca ao tentar cortar um pão ao meio e continuar fazendo o movimento de corte mesmo com a mão sangrando, quando um familiar a acordou. Chegou, inclusive, a pedir para seus pais trancarem a porta do seu quarto pelo lado de fora, para que não tivesse acesso a cozinha, uma vez que havia ganho muito peso e queria controlar sua alimentação. Já fez combinações que considerava repulsivas, como comer maionese com doce de leite. Recentemente tem acordado suja de chocolates e doces que não se lembra de ter comido e, pior ainda, tem ingerido os cosméticos que encontra pelo quarto. C. já chegou a ingerir creme para cabelos, shampoo e usou um batom como colher para comer pasta de amendoim.

O caso havia se agravado por C. estar lidando com coisas que foram muito traumáticas em sua vida, tornando-a emocionalmente fragilizada e fazendo com que o corpo buscasse, mesmo durante o sono, a satisfação através da comida. Outra curiosidade é que C., quando acordada e consciente, tem uma relação bastante difícil com a comida, pois sente nojo da maioria dos alimentos.

Para começar o tratamento foi necessário tirar do alcance da paciente todos os produtos que pudessem lhe fazer mal e, só então, trabalhar a questão emocional por trás do transtorno.

 

CAUSA

O DARS pode desenvolver-se por questões emocionais particulares de cada pessoa, sendo bastante subjetiva sua causa. Porém alguns estudos vêm apontando uma forte correlação entre esse transtorno e o uso de medicamentos estimulantes do tipo ADHD (como a Ritalina, por exemplo, usada no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Assim, há a possibilidade de o Distúrbio Alimentar Relacionado ao Sono ser um tipo raro de efeito colateral desses medicamentos.

 

TRATAMENTO

Infelizmente, esse distúrbio costuma ter caráter duradouro ou permanente e é um dos distúrbios alimentares de mais difícil remissão. Isso porque a pessoa não está consciente dos seus atos e nem consegue definir o que os dispara.

Ainda assim há possibilidade de tratamento, procurando profissionais para intervirem com o tratamento mais adequado para cada caso. É essencial o acompanhamento psicológico, médico e nutricional em casos de tratamento como esse.

 

 

REFERÊNCIAS
DE AZEVEDO, ALEXANDRE PINTO. Comportamentos alimentares noturnos inadequados: caracterização clínica e polissonográfica. 2010. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
 HARB, Ana Beatriz Cauduro et al. Síndrome do comer noturno: aspectos conceituais, epidemiológicos, diagnósticos e terapêuticos. Revista de nutrição= Brazilian journal of nutrition. Vol. 23, n. 1 (jan.-fev. 2010), p. 127-136, 2010.
HOWELL, M. J. Sleep-Related Eating Disorder.
 WINKELMAN, John W. Clinical and polysomnographic features of sleep-related eating disorder. The Journal of clinical psychiatry, v. 59, n. 1, p. 14-19, 1998.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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