Por que temos fascínio pelo mórbido?

Em épocas como essa, de dia das bruxas, as ruas e as mídias estão recheadas de coisas macabras, mórbidas e assustadoras. Muitos de nós ficamos fascinados ao ver/ouvir histórias, reais ou fictícias macabras. Filmes e séries com temas sinistros são consumidos aos montes.  Isso tudo acontece mesmo aqui no Brasil, onde não há uma forte cultura de dia das bruxas. Mas isso levanta uma questão: por que temos tanto fascínio pelo macabro? O que faz termos essa curiosidade mórbida? É sobre isso que falei no post de hoje, especial de dia das bruxas.

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

O FASCÍNIO PELO MÓRBIDO

            fascinio-pelo-morbido-post-1É claro que não dá para generalizar, mas no geral o ser humano tem fascínio pelo mórbido. A tragédia é retratada e muito bem vendida através das artes, poesia, teatro, cinema e música. Quando acontece uma tragédia real, as pessoas conversam incansavelmente sobre o assunto, espalham a notícia, ficam na internet procurando mais informações e detalhes sobre o caso.

Em épocas como essa, de Halloween, saem muitos filmes ou episódios de séries com temas macabros, histórias assustadoras baseadas em fatos reais que são muito bem recebidos pelo público. Mesmo aqui no Brasil, onde não é tão forte a cultura do dia das bruxas, esses temas “vendem” bem.

            Mesmo as pessoas que não gostam de entrar em contato com o mórbido passam um tempo relevante conversando sobre como é absurdo as pessoas se interessarem por isso. Quando um artista morre, muitas pessoas querem saber detalhes, enquanto outras se dedicam para criticar essas pessoas. Então não importa se de forma positiva ou negativa, o fato é que nós temos um fascínio pelo mórbido.

            Mas por que será que nós nos atraímos tanto pelo mórbido, pelo macabro?

            Primeiramente precisamos compreender que o mórbido não carrega um sentido em si mesmo, o sentido é dado por aquele que entra em contato com o mórbido. A partir dessa compreensão, fica mais fácil refletirmos sobre algumas hipóteses para o sinistro ser tão interessante, de uma forma ou de outra.

POSSÍVEIS MOTIVOS

 

O Proibido

A primeira coisa que podemos pensar talvez seja a mais óbvia. É a questão do proibido. Quanto mais regrada for a sociedade, mais espaço para haver curiosidade e interesse pelo proibido, pelo que não deveríamos ver, pelo que não deveríamos conversar sobre.fascinio-pelo-morbido-post-2

É fácil exemplificar isso. É correto afirmar que a família, o lar, é um lugar de intimidade compartilhada com os poucos que o dividem, os componentes desse ambiente e o que acontece lá dentro é oculto aos que ficam do lado de fora. Mas os Reality Shows fazem um sucesso tremendo, pessoas assistem todos os dias uma rotina as vezes até entediante de um grupo de pessoas, são brigas e conversas muitas vezes desinteressantes e que nada acrescentam. Há ainda os que vão mais além e compram o pay-per-view, pagam para invadir ainda mais essa intimidade, e não se cansam de ver as pessoas deitadas por horas, cozinhando, conversando, fazendo coisas que se pararmos para pensar, não são nada demais. O sucesso se dá por que o “show da realidade” é justamente o proibido, é um espetáculo acessível ao que nos é proibido, ao que não deveríamos ver.

fascinio-pelo-morbido-post-3Outro exemplo que posso dar é a pornografia. O sexo é algo muito íntimo, “proibido”, muitos repreendem os filhos quando falam sobre isso, é falta de educação falar sobre o tema em público. Mas é bem fácil você encontrar alguém que sabe dizer rapidamente o nome de ao menos 3 atores/atrizes pornô. Essa memorização incrível não acontece, por exemplo, com o nome de artistas, muitas vezes famosos e amplamente divulgados. A pessoa pode ver e ouvir falar 100 vezes mais sobre o artista, mas ainda assim não saber seu nome, enquanto não esquece o nome da atriz ou do ator pornô, por que isso acontece? Isso mesmo, pelo proibido, desperta maior interesse e atenção.

Assim, o mórbido entra nessa mesma categoria, a morte, o bizarro, o assustador, é muito repreendido, não se fala sobre isso em qualquer ambiente, não se assiste filmes/séries assim em sala de aula, não são expostas a nós como estudo obras de artistas que retrataram o mórbido. Isso faz com que o interesse fique ali, transbordando. Então o indivíduo fica fascinado quando encontra algo que fale sobre isso, que mostre o proibido.

O Ideal vs. O real

            Devo começar esse tópico sendo muito direta ao dizer que, basicamente, associamos o horrível ao real. Parece muito negativismo, mas eu vou explicar.

            O ser humano tem intrínseco em si a competitividade, é natural de nós, mesmo que inconscientemente, exaltarmos nossas qualidades e habilidades e encobrirmos ao máximo nossos defeitos. Todos nós fazemos isso, e se você está pensando que não faz, talvez esteja encobrindo agora mesmo. Com o advento da internet e das redes sociais isso, o que já acontecia em conversas foi intensificado, as pessoas postam fotos de jantares românticos, festas com os amigos, viagens maravilhosas, família unida. Mas ninguém expõe os momentos de briga entre a família, a briga com o namorado por ciúme de um ou outro, os amigos vomitando e dando trabalho na festa. E nem há a necessidade de isso ser exposto.fascinio-pelo-morbido-post-4

            O problema é que com isso, abrimos espaço para a idealização. Nós, como seres humanos, sabemos de nossas limitações, medos, angústias, tristezas e infelicidades. Mas não vemos isso no outro, vemos apenas o que os outros querem nos mostrar, que são as coisas boas. Com isso, o pouco que conseguimos imaginar da vida dos outros é positivo, e preenchemos as lacunas com mais coisas positivas. Assim, imagina-se a vida do outro de forma idealizada. Não é preciso dizer que isso é ruim, pois o ideal, em sua concepção, é algo afastado do real.

            A partir daí comparamos a vida idealizada do outro com a nossa realidade. Vemos nas outras pessoas uma ausência das fragilidades físicas e emocionais que nos atingem. Endeusamos os outros, imaginando que apenas nós somos frágeis e temos tantos problemas na vida. E não se engane, na tentativa de tentar nos igualar aos outros, acabamos passando essa mesma sensação, sendo que os outros nos veem da mesma forma, por não conseguir enxergar todos nossos conflitos internos.

            fascinio-pelo-morbido-post-5Mas existe um único momento em que todo disfarce acaba, para todos. O momento da morte, da doença. Ninguém foge de uma doença e muito menos da morte, não dá para alguém ser menos morto que os outros, ou um morto melhor. Esse é o único tema em que somos todos iguais, o momento que nos aproxima daquelas pessoas que havíamos endeusado, ou melhor, aproxima elas da realidade em que vivemos.

            Há ainda aqueles que sentem nisso certa imortalidade, um momento em que se sente tão endeusado como havia endeusado as outras pessoas, pois a tragédia foi com o outro, não com você. Enquanto ele não resistiu, não escapou, você está aí, inteiro.

            Mesmo quando não falamos especificamente da morte, qualquer tipo de coisa ruim, trágica ou triste chama atenção. É interessante ao humano ver um casal brigando num reality show, pois parece mais real do que aquela convivência maravilhosa dos filmes, tão irreal para nós. É mais tocante o final trágico em uma peça teatral, pois é mais real do que o final feliz, tão distante de nós. É através dessas experiências mórbidas que há a possibilidade de sublimar a energia sofrida do pensamento de que somos de carne e osso, de que somos mortais.

Aproximação/Afastamento da realidade que queremos negar

            fascinio-pelo-morbido-suzaneÉ difícil para nós tolerar nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade. Tentamos negar isso o tempo todo e realmente negamos, para que o medo não nos impeça de fazer tudo. Quando acontece um crime, como por exemplo o caso da Suzane von Richthofen, as pessoas não conseguem suportar. É, infelizmente, mais chocante do que uma pessoa simples que é assassinada na favela, porque é mais próximo. Uma menina que teve uma boa família, oportunidade de estudo e uma vida confortável é muito mais próximo de nós, privilegiados, do que as pessoas que vivem na miséria. E como pode uma pessoa tão próxima, que poderia ser sua filha ou sua irmã, ser tão perversa? Quer dizer que as pessoas com quem convivo, tão parecidas com ela, também podem ser perversas? Isso causa angústia, é difícil admitir que uma pessoa como a Suzane pode ser igual a qualquer um de nós, preferimos projetar nela toda a maldade para não lidar com a dor de que nós mesmos podemos ser ruins, ou aqueles que amamos.

            Recentemente surgiu um documentário na Netflix que conta a história de Amanda Knox, que em 2006 foi acusada de assassinar brutalmente sua colega de quarto. Hoje Amanda está solta, pois as provas eram inconclusivas, ainda assim, é um dos casos mais famosos do mundo. A pessoas, há 10 anos, procuram notícias sobre isso, discutem se Amanda é culpada ou inocente. No documentário a própria Amanda é muito feliz em sua colocação, em suas palavras, ela diz:fascinio-pelo-morbido-amanda-knox

“Acho que as pessoas amam monstros. Então, quando têm uma chance, elas querem vê-los. As pessoas projetam seus medos. Elas querem a reconfirmação de que sabem quem são as pessoas ruins, e que não são elas. Então talvez seja isso, nós todos temos medo, e o medo enlouque as pessoas”.

            Sua fala é mais que verdadeira, ilustra muito bem o tema aqui apresentado. As pessoas gostam de ver pessoas más nos mínimos detalhes para assumir coisas como: “mas ela é estranha, como ninguém viu?” ou “estava na cara, ela não chorou nenhuma vez”. Esse comportamento se dá pelo medo da nossa vulnerabilidade, medo de assumir que talvez nem toda pessoa ruim aparente isso, ou de assumir que uma pessoa inocente, como qualquer um de nós, pode ser acusado injustamente de um crime hediondo. Por isso as pessoas projetam os medos em pessoas e casos como o de Amanda Knox, criando um monstro para acreditar em sua própria bondade.

            fascinio-pelo-morbido-making-a-murdererA questão da vulnerabilidade também foi bastante consumida recentemente. Também pelo Netflix, saiu uma série chama Making a Muderer, que conta a história de Steven Avery, que ficou preso por 18 anos acusado de um crime que alega não ter cometido. Na época de lançamento, a série explodiu, muitas pessoas falavam sobre isso e discutiam suas opiniões. Uns achavam que Avery era culpado e tentavam encontrar justificativas. Essas justificativas na verdade são uma tentativa desesperada de encontrar uma forma de culpa-lo e afastar o medo de que uma pessoa inocente pode sofrer injustamente. Outros defendiam Steven com unhas e dentes, ressaltando a monstruosidade da equipe que o prendeu. Nesse caso, a tentativa é de identificar quem são os verdadeiros vilões. Há uma necessidade de acreditar que sabemos quem é bom e quem é mau, para assim acreditarmos que podemos nos defender.

            Enquanto afastamos tudo isso de nós, por não sabermos lidar, temos momentos de tentar nos aproximar da morte na busca de entendê-la. Quando acontece um grave acidente de carro na estrada o trânsito fica parado, em grande parte porque as pessoas passam bem devagar ao lado da cena, tentando ver com mais detalhes a tragédia. Alguns até mesmo param o carro e vão até lá assistir todo o desenrolar do acidente. Em muitos casos mortes acidentais de artistas, fotos do corpo foram amplamente compartilhadas, como no caso dos Mamonas Assassinas, por exemplo, uma época em que não havia toda essa facilidade de comunicação e transferência de arquivo que temos hoje, mas ainda assim as pessoas utilizavam os poucos meios que tinham para compartilhar as fotos com os amigos. Fazemos isso de forma automática, surge uma grande curiosidade no momento. Esse comportamento é uma tentativa da nossa mente de entender a morte, de se aproximar mais dela. A morte é a única coisa que nenhum de nós pode evitar, é a nossa única certeza. Ainda assim, é um dos maiores mistérios que nos rodeia, pois ninguém sabe realmente o que acontece depois da morte. Isso nos assusta, nos deixa apreensivos. Então tentamos nos aproximar da morte, tentar entendê-la, vivencia-la sem ter que realmente morrer. É como um parque de diversões, se você está na fila para um brinquedo radical, fica apreensivo, vendo as reações de todas as pessoas que estão usando o brinquedo antes de você. Isso ajuda a prever o que irá acontecer com você ao entrar lá, deixando-o mais preparado. Mas, infelizmente, não há ninguém que podemos ver saindo do brinquedo da vida para que possamos prever o que acontecerá com nós.

REFERÊNCIAS

HORVAT, Bárbara Valle. O fascínio pela escuridão. Controvérsia, v. 1, n. 1, p. 95-99, 2014

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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