Tristeza de Fim de Ano: o que fazer?

A TRISTEZA DE FIM DE ANO

Normalmente mais animadas que o natal, as festas de fim de ano representam alegria, descanso, curtição e família, é um novo começo, novas oportunidades, deixar para trás tudo que não é bom, mas isso para alguns. Para outros não é tudo tão bom assim, é um período de angústia e ansiedade. A gente pode imaginar que a tristeza é semelhante a tristeza de final de domingo, só que muito mais intensa. Nessa época há quase que uma obrigação de ser feliz, se a pessoa não estiver tão alegre quanto as outras, passa a pensar que há algo errado com ela. Sabe aquela coisa que algumas pessoas sentem, de ir para casa no final de semana, enquanto tanta gente está saindo para se divertir, e questionar se é solitário? Se está feliz?

Enquanto alguns esperam ansiosamente por esse período do ano, outros o temem. Sentem estresse, depressão, ansiedade, ficam aterrorizados conforme a data se aproxima e passam por um pesadelo ao ter que fazer a contagem regressiva. Essas pessoas torcem para que tudo isso acabe e a rotina volte ao normal.

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

 CAUSAS

Os motivos variam de pessoa para pessoa, mas posso trazer aqui alguns possíveis para entendermos melhor o fenômeno.

  • A ansiedade e o medo: Como eu disse, essa época do ano traz quase uma obrigatoriedade de ser feliz e isso gera medo. Algumas pessoas podem ficar com medo de não acontecer nada na data, de não receber ou visitar os amigos ou familiares, de não trocar presente com ninguém, de não se divertir ou de não se sentir importante.
  • Sentimento de falta de tempo: Quando chega o final do ano, sentimos necessidade de terminar os projetos iniciados e até os não iniciados. Esse sentimento por si só causa um grande desgaste, pois na maioria das vezes não é possível concluir em alguns dias um projeto que não pode ser concluído durante todo o ano. O ser humano é um ser que vive dentro de seu tempo, o sentimento de “acabando” que o fim do ano traz, o sentimento de falta de tempo, causa muita ansiedade, pois traz a ideia de que não haverá tempo hábil para ajeitar a vida, alcançar sonhos, ser feliz.
  • Percepção alterada: Em uma época do ano em que se é obrigado a ser feliz e muito se fala em projetos concluídos e novos projetos a serem feitos, é natural que nossa percepção de si mesmo não seja tão acurada. Assim, no nosso “balanço de fim de ano”, notamos tudo aquilo que não pudemos realizar, seja por não ter sido possível iniciar o projeto ou por impossibilidade de concluí-lo. Com isso, nosso olhar não alcança nossas conquistas e somos tomados por uma baixa autoestima, resultado da soma entre melancolia de final de etapa e julgamento severo de nossos erros.
  • Falta de planos: Ah, a época em que todo mundo faz planos para um novo começo! Não ter planos nessa época do ano quase significa não ter um futuro, ficar na mesma situação do ano anterior, cair no limbo, parado no tempo. Isso é causador de grande angústia e medo do futuro que se aproxima.
  • Lembranças: Nessa época do ano é quase obrigatório que deixemos de olhar apenas para o presente e olhemos para todo o nosso passado também, nossa história. Isso é muito difícil para aqueles que ainda tem dificuldade de lidar com algumas lembranças, principalmente com faltas e lutos. Alguns nãotem mais seus entes queridos próximos, e lembram-se de outras datas comemorativas que eles estiveram lá, alguns lembram de como essa época já foi mágica e hoje essa magia se perdeu. Filhos de pais separados nessa época ficam muito ansiosos e tristes com as escolhas que tem que ser feitas, passar a data importante com um pedaço da família e não com a outra, lembrando de épocas em que essa decisão não era necessária. Essas memórias desencadeiam tristeza e possivelmente até melancolia.
    Balanço: O ano acabando, leva nossa mente a fazer um balanço geral de como foi o ano. Se foi um ano difícil, pode surgir uma grande tristeza ao lembrar de problemas de saúde, planos falhos, crises familiares, problemas financeiros e etc.
  • Volta a rotina: Durante o ano, passamos a maior parte de nosso tempo trabalhando. Nos poucos momentos que podemos relaxar, ficamos procurando algo interessante para fazer na busca por preencher nosso tempo de forma relaxante. Por isso há aquela tristeza comum de fim de domingo, nosso dia de descanso, de liberdade, está acabando e logo começa tudo de novo. Esse momento é de angústia e ela é semelhante à de final de ano, sendo essa última ainda mais intensa. É um grande vazio pós festas, no qual a realidade é mais cruel que o sonho.
  • Finitude: A única certeza do ser humano, a da finitude, é causadora de grande sentimento de desemparo. Ao ver o ano acabando, ficando para trás, o tempo passando, a pessoa tem consciência daquilo que tentamos negar o tempo todo, a morte. Isso gera um grande conflito existencial que causa angústia e tristeza.

 O que podemos fazer para evitar ou diminuir essas sensações?

É claro que eu, você ou aquela pessoa do nosso lado pode acabar ficando triste nessa época do ano independente do que aconteça. Mas algumas ações e formas de pensar podem diminuir a angústia, sendo mais fácil de suportá-la e lidar com ela. Adotemos essas ideias e, se notarmos alguém triste nessa época, devemos respeitar essa pessoa antes de tudo, respeitar seu sofrimento. E aí buscar ajuda-la, dar essas dicas, ou indicar a busca de ajuda profissional.

Antes de tudo, devemos abrir espaço para a tristeza. Devemos entender que temos direito de nos sentirmos tristes em alguns momentos da vida, isso não é vergonhoso e não temos que disfarçar ou fingir que não está acontecendo. Permita-se sentir o que você está sentindo, esse é o principal ponto para poder lidar com a situação e melhorá-la. Além disso, precisamos entender que não é necessário estar apenas feliz ou apenas triste. Se você se permitir sentir um pouco de tristeza, talvez consiga abrir espaço para curtir coisa ou outra da comemoração também.

Além disso, devemos entender que todo mundo tem limitações na vida. A tristeza é dolorida, difícil de disfarçar, mas comum a todo ser humano, por mais que ele não transpareça. Por isso devemos ter em mente que não somos um problema sem concerto, somo apenas humanos, seres conflituosos de alegrias e tristezas simultâneas.

Uma boa ideia é deixar a avaliação, o balanço de fim de ano, para outro dia. É um momento que, como conversamos acima, quase nos obriga a ter sucesso ou ser feliz, e com isso ficamos muito autocríticos. Portanto, não é a melhor hora de avaliar nosso ano, com um olhar tão severo. Deixe isso para depois, em um momento sem pressão.  E, quando for fazer isso, valorize também cada pequena conquista ao invés de só as falhas ou erros. Mantenha em mente que se você não concretizou algum plano que tinha no começo do ano, talvez não estivesse preparado, ou não teve tempo hábil para tudo, pois imprevistos acontecem. Não seja tão duro com você mesmo.

Se você notou que está mais entristecido com a proximidade do fim do ano ou sabe que a época costume te deixar triste, adote hábitos para combater esse sentimento. Aproveite cada minuto que tiver de relaxamento, curta seu banho, faça alongamentos, é muito bacana fazer uma caminhada no parque ou correr. Faça o possível para não chutar o balde na comilança de fim de ano e mantenha uma alimentação balanceada nos dias que cercam as datas comemorativas. Isso tudo ajuda seu corpo a liberar os hormônios que ajudam a combater esse sentimento de melancolia.

Um ato solidário também pode ajudar muito! Muitos criticam o que chamam de altruísmo de fim de ano, mas é um fenômeno compreensível. Esse momento que nos convida a parar e refletir faz com que olhemos a nossa volta. E toda ajuda é bem-vinda, por isso, caso possa, faça uma ação solidária. A solidariedade ajuda tanto quem recebe como quem doa, pois ajuda aqueles que estão sentindo-se sozinhos em sua tristeza, traz sensação de calor, humanidade.

Acima de tudo, a angústia, tristeza, depressão, melancolia ou o que for que a pessoa está sentindo, deve ser levada a sério. Não se deve simplesmente justificar a tristeza, mesmo que seja só na época, um tratamento adequado, um acompanhamento terapêutico, pode e vai ajudar a pessoa a passar por essa aflição.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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