Lugares felizes têm maiores taxas de suicídio

Quando pensamos na ação do suicídio, logo pensamos que o indivíduo que cometeu esse ato estava muito infeliz e não aguentava mais sua situação. Se formos pensar nos locais com maiores índices de suicídio, automaticamente nos remetemos a lugares infelizes, onde a vida é precária, triste e sem estrutura. Mas esse pensamento, por mais lógico que pareça, está errado. Estudos indicam que os lugares com melhor qualidade de vida são os que possuem os maiores índices de suicídio.

SUICÍDIO

            O suicídio pode ser compreendido como uma forma de se livrar do sofrimento, como já explicamos melhor no post sobre para-suicídio. Por isso imagina-se que países com baixa qualidade de vida tenham um alto índice de suicídio. Porém, uma pesquisa realizada por estudiosos da University of Warwick, na Grã-Bretanha, da Hamilton College, em Nova York e do Federal Reserve Brank, em San Francisco, indica justamente o contrário. Os países, cidades e estados onde as pessoas são mais felizes são os que apresentam as taxas mais elevadas de suicídio.

EXPLICANDO O PARADOXO

            suicidio-post-2Acontece que o ser humano tem a tendência e o costume de se comparar com os outros. Por isso em lugares muito precários, onde o sofrimento pode ser encontrado com mais frequência, há uma tolerância maior ao sofrimento. Entende-se que essa é a vida e não é um fracasso pessoal. Esse pensamento possibilita a criação de estratégias de enfrentamento.

            Em contrapartida, em lugares onde a felicidade reina, a pessoa sente que é a única infeliz. Sentir-se infeliz em um ambiente onde a maioria das pessoas está no mínimo satisfeita faz com que a sensação de infelicidade aumente bastante e com isso as chances de a pessoa recorrer ao suicídio também aumentam.

            Os dados encontrados nas pesquisas são muito importantes para compreendermos o comportamento humano e o fenômeno do suicídio. Pessoas descontentes vivendo em um lugar feliz sentem-se particularmente maltratadas pela vida e encontram grande dificuldade de lidar com isso. Períodos de depressão podem ser mais toleráveis em um ambiente no qual outros seres humanos também estão infelizes.

 

COMPARANDO-SE AOS OUTROSsuicidio-post-1

            Não é novidade que o ser humano julga seu bem estar comparando-se com outras pessoas a sua volta. Há diversos estudos que já apontam isso. Isso inclusive levanta uma vasta discussão sobre o papel das redes sociais, nas quais as pessoas só compartilham momentos felizes e conquistas, levando os que estão fragilizados a imaginarem que apenas a vida deles é difícil. Mas esse estudo trouxe dados muito significativos, saber do risco que esses sombrios contrastes entre felicidade e depressão trazem pode ser importante para salvar muitas vidas.

            Para finalizar, outro ponto interessante que podemos pensar a respeito desse efeito é  quando falamos de dificuldades específicas, como renda, desemprego ou obesidade. Pessoas que enfrentam esses problemas e estão cercadas de pessoas que também os enfrentam, tendem a conseguir lidar melhor com a situação de depressão. É por esse motivo que grupos de apoio são tão efetivos. Pessoas que passam pela mesma situação se unem e compartilham experiências, mostrando que há muitas formas de lidar com isso e que não estão sozinhas.

 

REFERÊNCIAS

Mary C. Daly; Andrew J. Oswald; Daniel Wilson; Stephen Wu; Dark contrasts: The paradox of high rates of suicide in happy places. Journal of Economic Behavior & Organization. v. 80, n. 3, p. 435-442, 2011.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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