Frotteurismo: o esfregar-se no outro em transporte público

Muitas pessoas, principalmente mulheres e até mesmo crianças, já foram alvos do abuso sexual em que o agressor, um desconhecido, começa a se esfregar na vítima, excitando-se. Infelizmente isso é comum principalmente em transportes coletivos lotados, onde a lotação e o balanço do movimento facilitam a ação “discreta” do agressor. Isso é abuso sexual, deve ser denunciado e combatido, não há duvidas. Mas o que muita gente não sabe é que esse tipo de excitação sexual é um transtorno psicológico do tipo parafílico: o transtorno frotteurista ou frotteurismo.

            Já explicamos aqui antes o que é parafilia e transtorno parafílico. É bastante indicado que você leia aquele post antes de ler esse, para compreender melhor o assunto.

FROTTEURISMO

            O termo “Frotteurismo” deriva da palavra francesa “frotter” (esfregar) ou frotteur (aquele que faz fricção). É uma desordem caracterizada pela excitação sexual intensa e recorrente resultante de tocar ou se esfregar em uma pessoa que não consentiu com esse ato. Esse desejo pode ser realizado na esfera fantasiosa ou real, ambas caracterizando o transtorno.

            frotteurismo-post-1O diagnóstico é feito independente de a pessoa assumir ou não essa parafilia. Ou seja, tanto a pessoa que assume livremente sua parafilia quanto a pessoa que nega categoricamente sua condição podem ser diagnosticadas com o transtorno caso apresentem histórico de ações frotteuristas.

Porém, se o acometido assume sua situação e relata também sofrimento causado por ela, trata-se de um transtorno parafílico, o transtorno frotteurista. Mas se o indivíduo declara ausência de sofrimento (como ausência de ansiedade, obsessão, culpa ou vergonha) e é comprovado que ele nunca praticou realmente o ato, ou seja, nunca transferiu seus desejos da esfera fantasiosa para o real, então ele não tem um transtorno e sim um interesse sexual frotteurista.

PREVALÊNCIAfrotteurismo-post-2

A prevalência do TRANSTORNO frotteurista ainda é incerta. Mas sabe-se que atos frotteuristas episódicos ocorrem em 30% dos homens adultos da população em geral. Esses atos frotteuristas incluem sentir-se excitado ao se esfregar em outro indivíduo sem consentimento em um ou mais episódios (porém não por um longo período). A porcentagem de ocorrência desses atos frotteuristas é alta e bastante assustadora. A partir dela, imagina-se que a prevalência do transtorno frotteurista seja menor, porém ainda alta.

DESENVOLVIMENTO

Esse transtorno é incrivelmente mais comum em homens do que em mulheres, provavelmente devido a questões anatômicas. O início se da na maioria das vezes durante a adolescência ou começo da idade adulta, mas não existe uma idade mínima ou máxima para que alguém seja diagnósticado.

O curso da doença não é muito conhecido. Mas aparenta mudar com a idade, o avanço da idade pode estar associado à redução de comportamentos e atos frotteuristas, assim como ocorre em outros interesses sexuais.

Alguns comportamentos se mostram de risco para o desenvolvimento desse transtorno, como o comportamento antissocial não sexual, a preocupação sexual excessiva e a hipersexualidade. É claro que a presença desses comportamentos não garante que vá se desenvolver o comportamento frotteurista, mas é importante uma maior atenção nesses casos.

          frotteurismo-post-3Outro dado importante que devemos citar é que o ato frotteurista em um ou poucos episódios estimulado pelo uso de substâncias químicas não caracteriza o transtorno. O uso de substâncias, principalmente as estimulantes como a cocaína e anfetaminas, pode despertar excitação sexual desse tipo em um episódio, mas isso em decorrência da intoxicação e não necessariamente do interesse sexual contínuo da pessoa de se esfregar em pessoas que não estão cientes de tal fato.

Quando uma pessoa realiza o ato frotteurista, está sendo nocivo e apresentando dano a outras pessoas, isso faz com que esse seja considerado um delito criminal mesmo se tratando de um transtorno psicológico, e com toda razão! Por isso, caso isso ocorra com você ou você veja ocorrer com outra pessoa, busque ajuda imediata e denuncie! Casos como esse devem ser denunciados e devidamente tratados.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 5a. ed, 2014.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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