É antissocial ou tem fobia social?

Está na boca de todos: antissocial! Seu colega nunca quer ir às festas? Antissocial! Você odeia conversar em grupos grandes ou ser o centro das atenções? Antissocial! Sua irmã tem pavor de fazer apresentações escolares ou responder em voz alta as perguntas dos professores? Antissocial!

Bom, venho eu aqui dizer que, sob a perspectiva da psicologia e psiquiatria, nenhuma dessas pessoas acima é antissocial! Esse é um erro muito comum (e grave) cometido hoje em dia.

 

O que é ser antissocial

O transtornos de personalidade (ou comportamento) Antissocial é basicamente desprezo e indiferença às normas da sociedade e direito dos outros.  Vem da ideia de “anti” = contra e “social” = meio ou sociedade. Ele normalmente tem início na adolescência, por volta de 14 ou 15 anos, mas só pode ser realmente considerado Transtorno de Personalidade Antissocial se esse comportamento se mantém até depois dos 18 anos de idade. A falsidade, trapaça e a manipulação são aspectos centrais desse transtorno, mas o indivíduo antissocial também apresenta fracasso em lidar com normas sociais ou legais, agressividade (se envolve frequentemente em lutas corporais ou agressões físicas), violação dos direitos dos outros, descaso pela segurança de si mesmo ou dos outros, irresponsabilidade e ausência de remorso.

Pessoas com esse diagnóstico comumente apresentam também uma falta de empatia e tendem a serem bastante insensíveis, cínicos e desdenhosos com relação aos sentimentos dos outros. Além disso, costumam “se achar” muito por terem um autoconceito muito inflado, podem ser excessivamente opiniáticos e extremamente arrogantes, autoconfiantes e convencidos. Mais prevalente em homens, o desenvolvimento do transtorno antissocial é multifatorial (depende de vários fatores), mas acredita-se que os fatores ambientais, socioculturais e familiares sejam os mais significantes. Ele é de curso crônico (não tem cura), porém tende a diminuir conforme o indivíduo envelhece.

Ou seja, além de ser bastante diferente do que se imagina ao dizer que alguém é antissocial, também não é nada legal brincar dizendo que seu colega, amigo ou irmão tem essas características. Não é mesmo?

Mas se não é ser antissocial, o que é então?

            Primeiramente é importante dizermos que podemos estar falando apenas da Timidez Normal. Que é um traço da personalidade e por si só não é uma patologia. Inclusive em algumas sociedades a timidez é avaliada positivamente. Contudo, quando isso começa a impactar negativamente a vida da pessoa, então podemos considerar uma patologia.

O que o senso comum se refere quando chama alguém de antissocial é a Fobia Social (ou Transtorno de Ansiedade Social). Que seria um medo ou ansiedade acentuada em situações sociais, principalmente naquelas em que o indivíduo pode ser avaliado pelos outros (como apresentações, grandes grupos, ser o centro das atenções e etc.). Essas pessoas tem medo de interações sociais simples como manter uma conversa, encontrar pessoas que não são seus familiares ou ser observado (na maioria das vezes comendo). Isso acontece porque o fóbico social teme agir de forma a ser avaliado negativamente pelos outros, por isso situações sociais quase sempre lhe provocam grande medo e ansiedade e passam a ser evitadas. Isso prejudica o funcionamento social e profissional da vida dessa pessoa.

Existem alguns fatos interessantes sobre o indivíduo com transtorno de ansiedade social. Eles podem ser muito submissos, mas também muito controladores das conversas, de modo que mantenham Antissocialo tema onde se sentem seguros. Podem mostrar uma postura muito rígida e contato visual inadequado. Podem procurar empregos em atividades que não necessitem entrar em contato com outras pessoas. Tendem a sair da casa dos pais, casar-se e ter filhos tardiamente. Podem se automedicar para lidar com as situações de ansiedade, sendo a automedicação mais comum a ingestão de bebida alcoólica antes de ir à uma festa. Ruborizam com frequência. Podem ter dificuldade de urinar fora de casa por imaginar que os outros estão ouvindo. Evitam pequenas situações que o fazem imaginar que será julgado. Por exemplo, a pessoa que treme quando está nervosa pode deixar de beber em uma festa para não tremer ao segurar o copo ou a pessoa que sua muito pode evitar tocar nos outros para que eles não percebam.

A Fobia Social é mais comum em mulheres e a prevalência é mais pronunciada em adolescentes e jovens adultos. O início dos sintomas é por volta dos 13 anos de idade, mas em alguns casos começa muito antes, aos 8 anos. A causa pode ser um evento ou experiência estressante ou humilhante, como ser alvo de bullying, mas também pode se desenvolver lentamente sem nenhum grande evento determinante.

É importante citarmos também que existe o transtorno de ansiedade social do tipo somente desempenho. Os indivíduos com fobia social desse tipo não evitam situações sociais em que seu desempenho não está sendo julgado (como festas), mas tem um nível elevado de ansiedade quando seu desempenho está sendo julgado. Esse tipo é mais comum nas áreas escolares, acadêmicas e profissionais. Os principais atingidos são pessoas que dependem de conseguir um desempenho superior ao outro, como dançarinos, atletas, músicos e etc.

 

Pra resumir a história

Resumindo, se um indivíduo é calado ou não gosta de ser o centro das atenções, ele pode ser só tímido. Se a ansiedade em situações sociais, públicas e em que pode ser avaliado pelos outros é muito elevada e o prejudica, ele pode ter fobia social. Já a personalidade antissocial é aquela que rejeita regras, normas e desconsidera o direito e sentimento dos outros.

 

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 5a. ed, 2014.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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