É timidez ou Mutismo Seletivo?

Sabe aquela criança ativa que está brincando com os pais, mas quando chega alguém fica tímida, se esconde e não conversa mais com ninguém. Pois é, isso pode não ser apenas timidez. Pode ser Mutismo Seletivo.

O Mutismo Seletivo (ou Mutismo Eletivo) é um transtorno psicológico relativamente raro, mas que pode trazer graves prejuízos ao acometido e por isso deve ser conhecido e, em caso de diagnóstico, tratado.

Mutismo Seletivo

O Mutismo Seletivo é um transtorno de ansiedade que se caracteriza pela impossibilidade de o acometido falar em determinadas situações, mesmo falando perfeitamente em outras. Atinge principalmente crianças pequenas, mas pode ocorrer também com adolescentes e adultos.

Peter e sua irmã Judy, em Jumanji

Peter e sua irmã Judy, em Jumanji

Um caso bastante famoso (que apesar de fictício é baseado em um caso real) de Mutismo Seletivo é o de Raj, personagem da série The Big Bang Theory. O indiano é incapaz de conversar com mulheres ou mesmo com seus amigos na presença delas. A única forma de Raj se comunicar com pessoas do sexo oposto é estando alcoolizado. Essa estratégia de compensação é real e pode trazer prejuízos à saúde se não usada com parcimônia. Outro caso um pouco mais antigo que também pode exemplificar o transtorno é o de Peter, personagem do filme Jumanji, que após a morte dos seus pais só é capaz de falar com sua irmã Judy e ainda assim só o faz se não tiver mais ninguém presente no recinto.

O transtorno costuma ter inicio por volta dos cinco anos de idade, mas no geral só é diagnosticado depois, quando a criança entra na escola. Isso por que com a entrada no ambiente escolar existe um aumento de interações sociais e realizações de tarefas que exigem a fala, então o transtorno que até então passava despercebido, passa a ser notado. O curso da desordem é desconhecido e imprevisível, algumas pessoas podem “superar” a situação sem maiores problemas, outras podem continuar apenas com a ansiedade social e outros podem ter grande dificuldade para se verem livres do mutismo seletivo.

É importante deixar claro que não se trata de uma recusa da pessoa de falar e por isso não deve ser assim julgada. Esse transtorno torna a atividade da fala e da conversação impossível à pessoa, por mais que ela queira ou tente falar.

 

Mas como agem os que têm o transtorno?

O acometido não inicia conversas e não responde quando outras pessoas falam com ele.Mutismo Seletivo Essa dificuldade na interação se dá em qualquer relação social que não a da família ou amigos diretos, ou seja, a pessoa com mutismo seletivo pode conversar normalmente com seus pais e amigos, mas tornar-se automaticamente muda com a chegada de uma tia que não vê com tanta frequência, mesmo que o contato seja dentro de sua casa e ela esteja confortável e segura no ambiente.

A perturbação é na maioria das vezes marcada por uma intensa ansiedade social e isso traz grandes perdas. A incapacidade de falar em ambiente escolar ou acadêmico pode trazer prejuízos, uma vez que o professor é impossibilitado de avaliar o desempenho do aluno. Além disso, há prejuízos sociais e profissionais, pois a pessoa não consegue interagir diretamente com outros, impedindo-a de fazer amigos, se engajar em relacionamentos amorosos ou até conseguir um emprego. Quando em crianças, esse isolamento pode fazer com que os colegas comecem a importunar o acometido, podendo chegar ao bullying, que por sua vez gera graves danos psicológicos e emocionais.

Como perceber?

Algumas características podem nos ajudar a perceber um caso de Mutismo Seletivo. Claro, fora o fato de a pessoa simplesmente não conversar com ninguém que não seja diretamente próximo a ela, e nem com esses próximos na presença de outros. Mas enfim, a pessoa com essa perturbação pode recusar atividades em que precise falar e buscar atividades nas quais a fala não é exigida (em uma peça de teatro, por exemplo, prefere os papéis não verbais). Além disso, a pessoa pode ser excessivamente tímida, ter intenso medo do constrangimento, se isolar e se retrair em situações sociais, se apegar muito intensamente àqueles em que confia, ser impulsiva, negativista e apresentar um comportamento opositor (também conhecido como birra e desobediência)

O que causa o transtorno?

Judy e Peter jogando Jumanji

Além de fatores genéticos, as pessoas que mais correm risco de sofrer com esse transtorno são aquelas que: apresentam neuroticismo (tendência a experimentar emoções negativas, como raiva, ansiedade ou depressão), tem comportamento bastante inibido, sofrem de ansiedade social, se isolam ou são isoladas, tem familiares tímidos e tem pais superprotetores ou pais controladores. Claro que essas características não garantem que o indivíduo desenvolverá o Mutismo Seletivo, elas são apenas fatores de risco.

O que fazer?

Assim como qualquer outro transtorno de ansiedade o Mutismo Seletivo traz sofrimento e prejuízos ao acometido. Por isso é de suma importância que se busque ajuda profissional. A ludoterapia (terapia baseada no lúdico, no brincar) pode ser de grande ajuda. Além disso, o contato com animais pode ajudar a desenvolver as habilidades sociais necessárias para superar essa dificuldade.

 

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 5a. ed, 2014.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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