E se a sua vida fosse um Reality Show? Conheça a Síndrome de Truman

Vivemos constantemente cercados por tecnologia e mídia, chega a ser difícil pensarmos em uma realidade sem elas. Porém, alguns limites entre a vida particular e a midiática estão sendo perdidos. Com isso surge um novo tipo de síndrome: A síndrome de Truman (Truman Show Delusion).

O Show de Truman

Síndrome de Truman

Jim Carrey em O Show de Truman

Quem já assistiu ao filme O show de Truman: O show da vida (The Truman Show), de 1998, com Jim Carrey no papel principal, já consegue imaginar do que estamos falando. O filme mostra a vida de Truman Burbank, que é bastante midiática desde o seu nascimento. Ele não sabe, mas está vivendo em uma realidade simulada por uma emissora de televisão com intuito de transmitir um reality show sobre sua vida 24 horas por dia para bilhões de pessoas ao redor do mundo. Truman começa a suspeitar de tudo ao seu redor e inicia uma busca na tentativa de descobrir a verdade sobre sua vida.

A síndrome de Truman

A síndrome, ainda não reconhecida oficialmente pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM), leva o nome em homenagem ao filme. O termo foi criado em 2008, pelos irmãos Joel e Ian Gold. As pessoas que sofrem dessa síndrome têm delírios persecutórios que fazem acreditar que suas vidas são programas de televisão ou jogos e tudo a sua volta está sendo encenado, ou seja, se convencem de que sua cidade é um cenário, todos que o cercam são atores e o que fazem é monitorado e gravado.

Pode não parecer grande coisa em um primeiro momento, mas os acometidos sofrem intensamente e constantemente. Tente imaginar como é viver com a ideia de que tudo o que você conhece é falso. Angustiante, né? Eles começam a achar que tudo e todos estão diferentes e buscam incessantemente um significado para sua vida. Isso faz com que a pessoa vivencie as coisas mais simples de maneira diferente e mude a forma como compreendem a si mesmas e sua existência.

Há ainda poucos casos registrados do transtorno, pouco mais de 40 pelo mundo. Pela pequena amostra, percebe-se que os principais acometidos são homens entre 25 e 34 anos. Apesar de serem poucos casos a serem estudados, os episódios são bastante ilustrativos. Um dos pacientes dos irmãos Gold viajou à Nova York após o 11 de setembro para se certificar de que os ataques terroristas não eram apenas uma encenação para causar uma reviravolta no show de sua vida. Outro havia trabalhado em um reality show e passou a achar que estava sendo constantemente seguido por câmeras, então se aproveitou disso para nas eleições de 2004 passar sua mensagem gritando que George Bush era um Judas, o que fez com que o jovem fosse levado à internação. Há ainda o paciente que tentou escalar a estátua da liberdade, pois acreditava que ela o libertaria de seu show. Esse último relatou ter percebido que era o centro e o foco de atenção de milhares e milhares de pessoas e que sua família e vida não passavam de um script com finalidade de torná-lo o foco de atenção de todo o mundo. Mais recentemente, quando os irmãos Gold começaram a publicar estudos sobre a síndrome, um deles recebeu um e-mail de uma jovem que pedia que parassem, pois aquele era o show DELA.

Por mais curiosa e interessante que seja essa síndrome, é também bastante preocupante. A mídia se tornou uma grande aliada da modernidade, mas também uma inimiga. Criou uma Reality Showgeração de jovens que vivem criando diversos personagens de si mesmos, como se estivessem sempre em um palco com um público a assisti-las, gerando características narcisistas e individualistas. A síndrome de Truman, ainda precisa ser muito estudada, é claro. Mas seria ela uma extrapolação dessa nova característica dos jovens ou uma tentativa do indivíduo “sem audiência” de responder à sua necessidade – imposta por essas características da sociedade – de ser famoso?

 

REFERÊNCIAS:

GOLD, I; GOLD, J. The “Truman Show” delusion: Psychosis in the global village. Cognitive Neuropsychiatry, v. 17, p. 455-472, 2012.

DEUZE, et al. Vida Midiática, Revista Usp, São Paulo, n.86, p. 139-145, 2010.

Reality Bites [Disponível em http://www.canada.com/topics/bodyandhealth/story.html?id=2724cd43-07d3-461a-9623-454d707bd42b]

Look Closely, Doctor: See the Camera? [Disponível em http://www.nytimes.com/2008/08/28/fashion/28truman.html]

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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