Devemos alertar sobre a Diabulimia

Há cada vez mais casos de pessoas com diabetes tipo I que reduzem ou cessam o uso da insulina, intencionalmente, com o objetivo de perder peso. Esse comportamento vem de um transtorno alimentar chamado DIABULIMIA que, ainda não reconhecido oficialmente, vem adoecendo e levando a óbito muitas pessoas, principalmente jovens. Estudos já vem sendo feitos na área e há campanhas exigindo o seu reconhecimento como doença. Hoje falei sobre a Diabulimia e peço para que vocês compartilhem para que mais pessoas saibam que esse transtorno existe e assim possam ser ajudadas.

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

DIABULIMIA

            Já expliquei aqui o que é a bulimia, e a maioria de vocês deve saber o que é a diabetes. Falando de modo muito rápido, bulimia é um transtorno alimentar em que a pessoa tem episódios de compulsão alimentar em que come até ficar cheio e depois usa métodos compensatórios, como induzir vómito ou usar laxante, para não ganhar peso. Já a diabetes é uma doença metabólica em que a pessoa tem níveis muito altos de glicose no sangue, caso isso não seja tratado continuamente, pode causar diversas complicações sérias a saúde.

            diabulimia-post-1Hoje o tema é uma junção dessas duas condições, a Diabulimia. Apesar de ainda não ser reconhecida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a Diabulimia já é estudada desde o começo dos anos 2000 e o número de casos se mostra cada vez maior. Mostrando a necessidade de divulgar o tema para que possa haver prevenção.

            A Diabulimia é um transtorno alimentar que acomete pessoas com diabetes mellitus tipo I. As pessoas diabulimicas reduzem intencionalmente o uso da insulina necessária no seu tratamento, algumas chegam a não usar por muitos dias, com intuito de perder peso. Isso porque ao receber menos insulina do que deve, o corpo não tem como metabolizar e utilizar as energias que absorveria dos alimentos ingeridos e por isso a pessoa perde muito peso.

            Da mesma forma que outros transtornos alimentares, a Diabulimia está associada a distúrbios da imagem corporal, isso significa que a pessoa se acha gorda mesmo estando muito magra. Por isso os acometidos costumas usar, além da falta de insulina, outras estratégias para compensar a ingestão alimentar excessiva, como: prática excessiva de exercícios físicos, uso de remédios diuréticos ou laxantes e indução ao vômito depois de se alimentar.

            A administração incorreta da insulina pode causar vários riscos de curto e longo prazo para a pessoa, por isso deve ser controlada. Porém o problema é que pessoas com Diabulimia as vezes nem sabem que esse transtorno existe, e são diagnosticadas com anorexia ou bulimia. O tratamento proporcionado é incorreto e a pessoa continua em risco, sem saber que a Diabulimia existe, é comum e é uma doença de difícil remissão, exigindo atenção dobrada dos profissionais de saúde.

SINTOMAS

Alguns sintomas comuns da diabulimia podem nos ajudar a identificá-la.

CURTO PRAZO

  • Preocupação excessiva com a aparência
  • Preocupação excessiva com o peso e a imagem corporal
  • Autoimagem distorcida (pessoa magra sente-se gorda).
  • Vergonha do corpo
  • Aumento da frequência de micção (urinar).
  • Boca seca e sede constante
  • Apetite aumentado, com episódios de ingestão de grande quantidade.
  • Níveis altos de glicose no sangue
  • Grande quantidade de glicose na urina
  • Fraqueza
  • Fadiga
  • Dificuldade de concentração
  • Bochechas rosadas
  • Pratica excessiva de exercícios físicos
  • Uso de vômitos, laxantes ou outros métodos compensatórios depois de se alimentar
  • Sentimento de culpa depois de ingerir algo muito calórico.
  • Perda de peso repentina
  • Comprometimento nos cuidados com a diabetes (restrição ou diminuição da insulina).

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MÉDIO PRAZO

A médio prazo, os sintomas presentes anteriormente se mantém, mas aparecem outros, como:

  • Atrofia muscular
  • Mau hálito (com odor semelhante a acetona)
  • Indigestão alimentar
  • Dificuldade de manter a comida ingerida no corpo, tendo vómitos involuntários depois de se alimentar.
  • Perda severa de peso
  • Desidratação
  • Altos níveis de colesterol
  • Infecções Urinárias frequentes
  • Ansiedade

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LONGO PRAZO

Se a pessoa diabulimica ainda não estiver em tratamento a essa altura, novos sintomas, e mais graves, podem se juntar aos anteriores:

  • Fadiga e cansaço extremo
  • Colesterol alto
  • Danos severos ao rim (em alguns casos chegando a precisar de transplante).
  • Doença arterial periférica (braços e pernas)
  • Problemas no coração
  • Osteoporose
  • Infecções bacterianas na pele
  • Interrupção menstrual
  • Confusão Mental
  • Acidente Vascular Encefálico (antigo AVC)
  • Coma
  • Morte

 CONSEQUÊNCIAS

            Os sintomas acima descritos já podem – e devem – ser considerados graves consequências da Diabulimia. Porém existem ainda outras.

            A pessoa pode desenvolver dores nos membros periféricos, perder parcial ou totalmente a visão, ter disfunção erétil, ter confusão mental, desenvolver problemas cardíacos, desenvolver um quadro de insuficiência renal (como explicado acima, devido à sobrecarga nos rins que colapsam e param de funcionar) e desenvolver um quadro de cetoacidose, sendo este último um caso grave que leva ao emagrecimento com perda de gordura e músculos.

            Esses quadros, muitas vezes, levam a morte. Por isso é importante ficar atento a diabulimia e iniciar o tratamento o mais cedo possível.

 CASO CLÍNICO

            Recentemente a BBC chamou atenção para a causa através da divulgação do caso da britânica Lisa Day.

Lisa Day

Lisa Day

Lisa foi diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 14 anos de idade, desde então, precisava aplicar insulina em si mesma para manter os níveis corretos de insulina no corpo. Porém não foi isso que aconteceu, Lisa morreu em 12 de setembro do ano passado (2015), aos 28 anos. A família encontrou seu diário e só depois de sua morte descobriu que Lisa sofria de diabulimia há 10 anos. Na tentativa de prevenir outras mortes como a de Lisa, resolveram divulgar o caso.

            A ideia de escrever no diário foi do médico de Lisa, quando ela descobriu ter a diabetes, para que ela tivesse um registro de seus hábitos e ajudasse no controle dos níveis insulínicos no corpo. Porém, esse recurso acabou virando um local secreto de desabafo. No diário da jovem é possível compreender, claramente, como se sente um paciente diabulimico. Ela descrevia como se sentia com relação ao seu corpo, peso e aparência constantemente.

            Katie, irmã de Lisa, diz que eles não percebiam como as coisas estavam graves até encontrarem seu diário, mas aí era tarde demais. Não fica claro a elas o que veio antes, a diabetes ou os transtornos alimentares, mas a mistura dos dois foi um combo mortal.

            Segundo a família, a jovem sempre fora alegre, engraçada e não era neurótica com comida. Porém, com o tempo foi alterando os hábitos alimentares. No começo era saudável, não comia muito e nem alimentos calóricos, mas quando as coisas se agravaram ela percebeu que se não tomasse a insulina ela perderia peso de qualquer forma, mesmo comendo todas as comidas que ela quisesse (e não devesse). E foi exatamente isso que ela fez. Lisa nem teria dificuldades para administrar suas doses diárias, uma vez que usava a bomba de insulina, um pequeno aparelho que fica ligado a pessoa e analise os níveis de glicose no sangue, enviando a quantidade necessária de insulina conforme as análises. Porém, nem o aparelho ela usava mais.

            “Eu tenho feito exercícios para abdome e bumbum e estou indo à academia todos os dias. Não consigo fazer mais que isso ou vou morrer de exaustão, mas talvez isso seja uma boa coisa, porque sou tão gorda”.

Algumas entradas no diário de Lisa são realmente chocantes, mostram como as coisas estavam graves, mesmo que ela não demonstrasse isso aos outros. Lisa tinha pensamentos depreciativos e falas de morte.

 “É melhor eu ir queimar as calorias do meu jantar subindo as escadas ou alguma coisa, por favor, me deixe morrer”.

            O diabético aprende ao decorrer da vida a cuidar de si mesmo e da quantidade de insulina que necessita. Como Lisa já tinha o diagnóstico há muitos anos, a família assumiu que ela estava se cuidando normalmente, como dizia. Segundo eles, não havia nada que pudessem fazer, ela tinha a vida nas próprias mãos.

“Odeio ser diabética. Não posso comer quando quero porque não quero ganhar mais peso”.          

            Com o tempo a jovem desenvolveu condições e sérias dores estomacais. Ela comia, mas o estomago não conseguia mais processar o alimento, então ela vomitava tudo, tendo com isso muitas dores e tendo que ir ao hospital diversas vezes. Isso já era consequência do mal-uso da insulina.

            A mãe de Lisa conta que a filha tinha um vestido vermelho que era sua obsessão, ela usava-o quando era mais nova e seu objetivo era entrar naquele vestido novamente. Porém, ela havia crescido e o tamanho do vestido era impróprio para sua estatura corporal, mesmo magérrima.

“Estou me obrigando a vomitar, porque caso contrário me sinto culpada pelo que comi”.

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Lisa Day

Katie diz que só depois da morte da irmã que percebeu quantas coisas ela tinha que administrar e como isso devia ter sido difícil a ela. Mesmo sabendo que ela precisava tomar a insulina, não sabia quão comprometida ela devia estar e como a questão de ter a bulimia dificultava esse processo. Só então ela pensou que outras pessoas podiam sofrer da mesma situação e resolveu levar o caso a público. “Se Lisa tivesse essa ajuda há 10 anos atrás, talvez ela ainda estivesse aqui”.

            “Me sinto realmente gorda. Quero perder peso. Acho que estou pesando uns 57 quilos”.

             Adolescentes costumam sentir-se muito bem no dia do ano em que a escola permite que eles vão sem uniforme, pois pode se arrumar e se vestir de acordo com o que os faz sentir bem, mas não era o caso de Lisa.

“Um dia sem uniforme na escola. Sinto-me tão gorda. Todo mundo estava bem hoje, menos eu. Vomitei minha comida hoje”.

            Depois da morte de Lisa, a instituição Diabéticos com Transtornos Alimentares (DWED – Diabetics with eating disorders) passou a fazer campanha para que a diabulimia seja oficialmente reconhecida como um transtorno alimentar e psicológico.

“Acho que sou bulímica”

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Lisa Day

Lisa, diferente de muitas pessoas com o transtorno, conseguia enxergar que estava doente, mas infelizmente se enganou e não obteve a ajuda necessária, ao invés de bulimia ela tinha diabulimia.

Abaixo você pode ver um vídeo com Katie, irmã de Lisa, lendo alguns pedaços de suas entradas no diário. Infelizmente o vídeo só é encontrado em inglês e sem legendas, mas grande parte das falas já foi traduzida aqui na descrição do caso.

TRATAMENTO

            As pessoas que sofrem desse e de outros transtornos alimentares não percebem que estão doentes e podem recusar ajuda. Por isso o primeiro objetivo, e mais importante, é conseguir mostrar a pessoa que ela está doente e que pode buscar ajuda, contanto com seus amigos, familiares e com profissionais para lidar com a situação.

diabulimia-post-4Por não ser um transtorno reconhecido oficialmente, ainda não existem diretrizes quanto ao tratamento da diabulimia. Mas compreende-se, de acordo com os danos ao paciente, que seja necessário um atendimento multidisciplinar que inclua ao menos psicólogo, nutricionista e endocrinologista. Com isso já é possível lidar com as questões emocionais, físicas e alimentares do caso, criando estratégias conjuntas de enfrentamento, em que uma área de suporte a outra.

Alguns estudos citam também que grupos de apoio (tanto presenciais quanto virtuais) podem ser de grande ajuda na aceitação e no reconhecimento da condição, pois vendo nos outros os sintomas, é mais fácil enxerga-los em si mesmo. Isso facilita a busca de apoio e tratamento.

Mas, para ajudar essas pessoas no sentido preventivo, o melhor que podemos fazer é propagar o conhecimento acerca desse transtorno, compartilhando informações, para que o alcance seja maior e mais pessoas possam ser ajudadas.

REFERÊNCIAS

DAVIDSON, Jennifer. Diabulimia: how eating disorders can affect adolescents with diabetes. Nursing Standard, v. 29, n. 2, p. 44-49, 2014.

HASKEN, Julie et al. Diabulimia and the role of school health personnel.Journal of school health, v. 80, n. 10, p. 465-469, 2010.

RUTH-SAHD, Lisa A.; SCHNEIDER, Melissa; HAAGEN, Brigitte. Diabulimia: what it is and how to recognize it in critical care. Dimensions of Critical Care Nursing, v. 28, n. 4, p. 147-153, 2009.

YAN, L. ‘Diabulimia’a growing problem among diabetic girls. Nephrology news & issues, v. 21, n. 11, p. 36, 38-36, 38, 2007.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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