Depressão Infantil: vamos realmente entendê-la?

A maioria de nós consegue perceber alguns sinais de depressão em adultos. Sabemos quando a tristeza passa a ser algo a mais e começa a prejudicar a vida da pessoa. Isso é ótimo, pois aqueles que precisam de ajuda, de acompanhamento, têm mais chances de ter alguém ao seu lado para ajudá-los. Mas o que muitos não sabem é que as crianças também podem se deprimir, sendo isso muito grave por causar sérios prejuízos ao desenvolvimento. O problema maior é que não estamos preparados para notar os sintomas da Depressão Infantil, confundindo-a com timidez, mau comportamento ou até diagnosticando erroneamente como TDAH. Então, no post de hoje resolvi trazer esse tema para entendermos um pouco mais a Depressão Infantil.

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

 

DEPRESSÃO INFANTIL

 Segundo a OMS, se intervenções não forem feitas, em até 20 anos a depressão será a doença mais comum em todo o mundo. Isso mostra que hoje, mesmo que ainda esteja atrás de outras doenças, a depressão já afeta muitos adultos. Mas entre os pequenos também há depressão e os índices são igualmente preocupantes. Nos últimos 10 anos o número de diagnósticos em crianças entre 6 a 12 anos passou de 4 para 8%. Isso sem contar os casos não diagnosticados. Assim, fica claro que o problema está aumentando. Muitos dos adultos que hoje apresentam quadros de depressão podem ter tido também enquanto criança sem nem saber, como isso não foi tratado, permaneceu. Então, ao não cuidarmos de nossas crianças, podemos estar contribuindo para um futuro adulto depressivo, que fará parte desses índices assustadores que a OMS nos apresenta.

depressao-infantil-post-1Devo dizer que toda criança se sente triste vez ou outra. É completamente normal passar por momentos de grande tristeza, principalmente se estiver vivenciando momentos difíceis na família. Nesse caso, o choro é uma reação saudável e é importante para a criança elaborar a tristeza do momento. O problema é quando a tristeza vira melancolia.

A Depressão Infantil (DI) é multifatorial, ligada a questões biológicas e ambientais que atuam ao mesmo tempo. Para um desenvolvimento saudável, a função materna e um bom ambiente com condições favoráveis são essenciais. Esse ambiente e essa mãe não requerem perfeição, eles precisam apenas ser suficientemente bons, oferecendo satisfação às necessidades da criança, facilitando também a saúde mental. Essas questões são MUITO importantes para um desenvolvimento saudável. Para ilustrar isso é só pensarmos que nenhum de nós teria alcançado a maturidade se não tivesse alguém que se encarregou de cuidar das nossas necessidades físicas e emocionais nas etapas iniciais da vida. O bebê não consegue sozinho se desenvolver e desenvolver sua personalidade, muito menos cuidar para que isso seja feito da melhor forma possível.

Em alguns estudos, pouco se fala dessa relação dual mãe-bebe no início da vida, no momento em que o bebê é absolutamente dependente da mãe, um momento em que o bebê só existe por conta dos cuidados de sua mãe (ou cuidador) e essa mãe se doa para que formem uma só unidade. Muito se fala sobre as consequências que problemas familiares e ambientais podem gerar, e realmente isso merece atenção. Porém, não devemos olhar para as situações ocorridas apenas após o desenvolvimento inicial do bebê. O que acontece no começo entre mãe e bebê é muito intenso e importante para o desenvolvimento saudável, a ausência desses cuidados básicos e essenciais pode acarretar problemas graves, como o que estamos falando aqui hoje, a depressão infantil.

 FATORES DE RISCOdepressao-infantil-post-2

 Como já citei acima é um grande fator de risco a precariedade na relação mãe-bebe no início da vida ou a ausência de uma mãe ou ambiente suficientemente bons para o bebê e suas necessidades. Quero ressaltar que por mais que esse fator pareça irrelevante, é um dos mais importantes, pois é a base, a fundação de toda a constituição da criança. Se o suporte que a mãe oferece ao bebê é deficiente, ele, que se sente ligado a ela como um só, vivenciará uma forte sensação de despedaçamento. Mas é claro que existe outros fatores, afinal a DI é de causa multifatorial.

Outro grande fator de risco é a depressão materna ou paterna. Se os pais apresentaram casos de depressão, a criança que convive com eles tem até 45% mais chance de também desenvolver esse diagnóstico, segundo estudos. Isso acontece porque um quadro depressivo deixa a mãe/pai da criança com irritabilidade, desânimo e apatia, isso obviamente influencia negativamente no vínculo que há com a criança, comprometendo então o funcionamento emocional e social do pequeno.

Além desses, podemos considerar fator de risco vivências de violência doméstica dentro de casa, abandono ou morte de um dos pais, distanciamento ou morte de um dos avós, pais que trabalham demais e não têm tempo para seus filhos, separação ou divórcio dos pais, problemas financeiros que deixam os pais preocupados e distantes, vivência de alcoolismo dentro de casa e, é claro, abuso físico ou sexual.

De acordo com o apresentado, entendemos que a depressão infantil é provocada por fatores que podem ir de predisposição genética até vivências traumáticas. Mas de qualquer forma, a DI traz problemas de gente grande e sentimentos difíceis de lidar para uma mente que ainda nem terminou de se desenvolver. Ou seja, o peso e o sofrimento são grandes demais, devemos ter atenção para impedir que nossas crianças passem por isso ou ajudá-las caso aconteça.

 SINTOMAS

 Os sintomas variam de criança para criança, também influencia o suporte que tem/teve, sua resiliência e a idade. Quanto mais velha for a criança, mais seus sintomas ficam semelhantes aos do adulto depressivo.

Alguns sintomas são mais comumente apresentados, devendo ter atenção. É claro que em algumas crianças um ou dois desses sintomas não é indicativo de depressão, é importante que os pais estejam atentos a sintomas como esses que antes não eram apresentados pela criança. Mas vamos aos sintomas:

  • Isolamento, a criança não brinca ou passa o tempo com colegas, irmãos ou pais.
  • Olhar triste e cabisbaixo, com movimentos e expressões faciais reduzidas, minimalistas.
  • Falta de energia e vitalidade, a criança sempre se sente cansada e não tem vontade de fazer nada, nem coisas que antes parecia gostar.
  • Sentimentos de desespero frente a situações simples.
  • Sentimento de desvalorização, dizendo que ninguém gosta dela ou que faz tudo errado.
  • Questionar porque veio ao mundo ou se os pais a desejaram/planejaram
  • Alterações alimentares, comer pouco ou comer muito.
  • Alterações no sono, dormir muito ou falta de sono
  • Dores físicas constantes, dores de cabeça, de barriga, nas pernas, etc.
  • Falta de vontade de ir para escola, sair para brincar com os amigos ou ir a uma festa
  • Alteração relevante de hábitos, quando a criança não faz mais grande parte do que costuma fazer
  • Tristeza e choro frequentes
  • Alterações bruscas no humor
  • Sentimento de rejeição, achar que os amigos não gostam dela
  • Pessimismo, achar que nada dará certo ou será divertido.
  • Enurese, fazer xixi na cama enquanto dorme
  • Encoprese, eliminar fezes involuntariamente
  • Regressão no desenvolvimento psicomotor
  • Pesadelos constantes
  • Ganho ou perda de peso excessivo
  • Tédio constante
  • Queda no desempenho escolar
  • Pensamentos e falas suicidas

Como vocês podem notar, os sintomas podem aparecer de diversas maneiras, mas isso varia de criança para criança. O pequeno deprimido não necessariamente apresentará todos esses sintomas, por isso a importância do olhar delicado, pois, como já dito, o quadro pode chegar a ideações suicidas. Pode parecer chocante, mas os índices de suicídio infantil não são tão pequenos quanto imaginamos. Mas é claro que isso só chega a acontecer em casos extremos.

CONSEQUÊNCIAS

depressao-infantil-post-3Esses déficits psicológicos e sociais acabam interferindo na construção da personalidade da criança e no seu desenvolvimento saudável. Isso interfere grandemente em questões emocionais, sociais, familiares, educacionais. Há prejuízos escolares e cognitivos, como diminuição da atenção e da memória. Leva inclusive ao isolamento que é extremamente nocivo para uma criança em desenvolvimento.

As consequências apresentadas são graves e acompanham a criança até a fase adulta, tornando-a um adulto com diversas dificuldades sociais, relacionais, familiares, emocionais e ocupacionais.

IMPORTÂNCIA DA COMPREENSÃO DA DEPRESSÃO INFANTIL

 É consenso entre os autores das mais diversas linhas de que a depressão infantil afeta atividades fundamentais da vida e as fases de desenvolvimento. Por isso, é extremamente importante o diagnóstico precoce, para que os danos não sejam graves nem irreversíveis. Porém, esse não é um diagnóstico fácil de fazer, porque muitas vezes os sintomas são confundidos com comportamentos “normais” para a faixa etária. É comum confundir a DI com timidez, mau humor, dificuldade de aprendizagem ou déficit cognitivo, tristeza ou até agressividade advinda da “fase de rebeldia”. Assim sendo, a Depressão Infantil muitas vezes não tem nem o diagnóstico tardio, pois passa despercebida em casa. A criança fica isolada e quieta e os pais interpretam como bom comportamento. Isso vai acontecendo até que a DI já está instalada e prejudicando a criança.depressao-infantil-post-4

Acontece ainda, infelizmente, de os pais ou profissionais mais desavisados não olharem para o diagnóstico de DI, procurando outra razão, já que “depressão infantil não existe”. Então há uma busca por outro diagnóstico que tenha sintomas semelhantes e a criança é exposta a um tratamento medicamentoso e terapêutico invasivo que em nada ajuda, pelo contrário, apenas traumatiza e piora o quadro. Isso tem acontecido muito com casos de TDAH. Atualmente, qualquer hiperatividade, dificuldade de aprendizado ou falta de atenção é considerado TDAH, e aí a criança é exposta a um remédio forte, faz terapia, tem que carregar um diagnóstico que faz ela questionar sua capacidade e faz os pais não estimularem mais a criança por “entender suas limitações”. Os pais e os profissionais, que buscavam ajudar a criança, acabam agredindo-a.

Essas razões fazem ser necessário que pais, profissionais da saúde e educadores estejam atentos às manifestações da criança, não vendo apenas o que aparenta, mas buscando os significados mais profundos. Pois, caso isso não seja feito e o tratamento adequado não seja oferecido, haverá uma perpetuação do sofrimento da criança.

A compreensão da Depressão Infantil também se mostra importante para que sejam propostos e realizados projetos de informação e prevenção em escolas, grupos sociais, serviços de saúde e outros possíveis lugares, alertando sobre a importância da relação mãe-bebê nos primeiros meses de vida e do olhar atento às crianças.

PREVENÇÃO

 depressao-infantil-post-5Melhor que remediar é prevenir. Para prevenir primeiramente é necessário proporcionar um ambiente facilitador do desenvolvimento saudável e uma boa relação mãe e filho nos primeiros meses de vida. Vou tentar explicar porque isso é tão importante. Nos primeiros meses o acolhimento da mãe faz o bebê ter a ilusão de que as satisfações de suas necessidades ocorrem por sua própria vontade, porque ele ainda não é capaz de se diferenciar do mundo externo. É importante manter por um tempo essa ilusão de onipotência, de controle do mundo, para que a criança desenvolva a confiança necessária para conseguir estabelecer boas relações com o mundo externo. Os pais podem ir, aos poucos, acabando com essa ilusão. Podem mostrar, em pequenas doses, a realidade externa ao bebê. Essa desilusão, se feita muito precocemente ou muito abruptamente, vai capacitar o bebê para começar a se relacionar com o mundo exterior, iniciando sua atividade mental.

Quando a criança é mais velha entra outro fator do qual já falei aqui exaustivamente mas irei repetir: a atenção, o olhar atento. Os pais devem conhecer as atividades da criança dentro e fora de casa, para que seja possível notar que algo errado está acontecendo e ajudar, buscar ajuda o quanto antes. Portanto, é importante mantermos em mente que o que diferencia a depressão de outras possíveis tristezas normais é a intensidade, a persistência e a mudança de hábitos normais da criança.

TRATAMENTOdepressao-infantil-post-6

Um dos melhores tratamentos é também um dos mais antigos: o lúdico, a fantasia. Permitir que a criança fantasie e proporcionar a ela esse tipo de vivência, para que através disso ela consiga lidar com seus sofrimentos e elaborá-los. Mas é claro que só isso não resolverá tudo. É importante também buscar tratamento psicológico, para que seja possível lidar com as questões não conscientes que estão influenciando o viver da criança. A terapia, por sua vez, não deve ser feita unicamente com a criança. A criança vive a vida dos pais e a vida por eles proporcionada, se isso causou sofrimento a ela, não será resolvido exclusivamente através dela mesma. Então os pais devem estar dispostos a participar da terapia, com um psicólogo infantil especializado.

Os profissionais da saúde podem também orientar os pais e, em casos mais graves, entrar com algum uso medicamentoso. Eu, particularmente, acredito que a intervenção medicamentosa deve ser feita apenas em casos extremos, mas isso deve ser compreendido a partir de cada caso.

Quanto aos pais, eles também podem ajudar dentro de casa. Devem levar os sentimentos da criança a sério, mostrar que compreendem e não diminuir o que ela sente. Podem ainda encorajar a criança a se envolver com atividades que ela gosta, alimentar a autoestima da criança, elogiando-a e reconhecendo suas qualidades e habilidades, mostrar que a amam, que se importam e que estão lá para protege-la.  Acima de tudo, dar atenção e carinho a criança.

 

REFERÊNCIAS

DOS SANTOS CALDERARO, Rosana Simão; DE CARVALHO, Cristina Vilela. Depressão na infância: um estudo exploratório. Psicologia em estudo, v. 10, n. 2, p. 181-189, 2005.

LIMA, Dênio. Depressão e doença bipolar na infância e adolescência. Jornal de Pediatria, v. 80, n. 2, p. 11-20, 2004.

MARTINS, Paulo César Ribeiro et al. O patinho solitário: um estudo psicanalítico sobre depressão infantil. Nativa-Revista de Ciências Sociais do Norte de Mato Grosso, v. 5, n. 1, 2016.

NAKAMURA, Eunice; SANTOS, José Quirino dos. Depressão infantil: abordagem antropológica. Revista de saúde pública, v. 41, n. 1, p. 53-60, 2007.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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