Comediantes são mais suscetíveis à depressão?

Quando pensamos em teatro, comédia ou apresentação vem facilmente à nossa mente as mascaras do teatro. As tão conhecidas máscaras do teatro grego representam os dois principais gêneros dramáticos: a tragédia e a comédia. As máscaras eram usadas diversas vezes durante uma apresentação, para que o público soubesse a emoção do personagem durante aquela cena. Esse objeto não é mais usado, mas será que as máscaras não permanecem?

COMEDIANTES E DEPRESSÃO

Comediantes estão sempre alegres, sorridentes e nos fazendo sorrir. Dá até para imaginar que eles não sofrem como nós, não choram como nós, levam a vida numa boa. Não é? Não é bem assim… Nos últimos anos fomos bombardeados de notícias de comediantes ou pessoas ligadas à criatividade ou comédia que cometeram suicídio. Seria esse um padrão ou apenas as noticias sobre essas pessoas chegam mais ao nosso conhecimento por serem figuras publicas?

Há uma crença popular de que os comediantes são pessoas tristes. Isso vem desde os palhaços, que eram conhecidos por serem seres tristes que nos faziam rir. A partir disso, pesquisadores da universidade de Oxford, na Inglaterra, decidiram investigar mais essa ligação. Isso porque muito se estuda sobre a criatividade e loucura, mas a profissão de fazer rir está sendo negligenciada quanto ao estudo de suas características depressivas.

O estudo foi realizado com 523 comediantes (119 mulheres e 404 homens), Ingleses, Americanos e Australianos. Foram aplicados testes que mostraram resultados curiosos: os comediantes tem sim um perfil de personalidade contraditório. Enquanto se mostram introvertidos e depressivos, apresentam também características extrovertidas e cheias de manias. Esse perfil contraditório parece facilitar a criação de performances cómicas. Com isso, acredita-se que a comédia seja uma maneira de lidar com o lado depressivo da personalidade, o que acaba o mascarando.

Comediantes - Teatro Grego

Máscaras simbolizando o teatro grego

Mas é claro que isso não vale para todo comediante e não só os comediantes ou pessoas criativas lidam com a depressão. Atualmente mais de 350 milhões de pessoas sofrem desse problema no mundo. Em casos mais graves, a doença pode levar ao suicídio, causando quase um milhão de mortes por ano.

Outros estudiosos dizem que por mais que essa ligação entre depressão e comédia pareça existir, ela ainda não se mostrou tão forte ou clara, por isso mais estudos são necessários. O que podemos pensar agora é que cada pessoa tem sua maneira de lidar com esse transtorno. Algumas se isolam, outras encontram um pouco de prazer e felicidade ao fazer os outros rirem e gostarem dela. Pode ser um bom alívio no momento, mas o problema é ficar dependente desse sentimento. O que fazer quando acabam os risos e aplausos?

Mais uma hipótese importante é que vemos essas pessoas apenas em suas performances, quando colocam um sorriso para mascarar a tristeza e geram risadas. Isso atrapalha a percepção da depressão e dificulta o tratamento. Por isso a conscientização é muito importante. Tenhamos em mente que uma pessoa que mostra um sorriso também vivencia muitas lutas dentro de si e pode estar precisando de ajuda, por isso é importante um olhar cuidadoso aqueles à nossa volta e sempre procurar ajuda profissional.

Voltamos à nossa ideia das mascaras. Quão irônico é o fato de que a profissão alvo desse estudo sobre depressão seja representada por um rosto sorridente e outro triste?  Além disso, a origem da palavra pode vir do latim mascus = fantasma, ou do árabe maskharah = homem disfarçado. Seria o comediante então um homem triste disfarçado de feliz? Seriam os risos da plateia fantasmas de algo que parece morto dentro dele? Se a resposta for sim, então devemos relembrar a frase romana: “quem vigia os vigilantes?” nesse caso: quem faz rir os comediantes?

Para finalizar, deixo aqui uma das falas apresentadas em Watchmen, renomada série de quadrinhos dos anos 1980, que resume perfeitamente a figura clássica do palhaço trágico:

Comediantes

Símbolo do personagem comediante, na série de quadrinhos Watchmen.

“Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao médico, diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto.
O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade, assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo.”
O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci.”

 

 

REFERÊNCIAS
ANDO, V; CLARIDGE, G; Clark, K. Psychotic traits in comedians. The British Journal of Psychiatry, v. 204, n. 5, p. 341-345, 2014.

 

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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