Burnout: Não é só cansaço (Entrevista)

O texto a seguir é a entrevista completa que foi concedida à Revista Metrópole, para a matéria “Não é só cansaço”, falando sobre a Síndrome de burnout, que é o esgotamento. Tendo saído apenas na versão física da revista. Por isso decidi trazê-la aqui para vocês.

 

Revista: O que é a Síndrome de Burnout?

Psicologia Para Curiosos: A síndrome de Burnout pode ser compreendida como um estado de triplo esgotamento (físico, emocional e mental) ligado à vida profissional. Os primeiros estudos sobre essa síndrome datam da década de 1970, feitos por Freudenberger. O nome burnout vem do inglês “to burn out”, queimar-se por completo, consumir-se.

Revista: Existem dados recentes sobre a Síndrome de Burnout?

Psicologia Para Curiosos: Estudos recentes mostram que a síndrome é cada vez mais comum. Os trabalhadores mais afetados, segundo essas pesquisas, são os da área da saúde, até 40% desses profissionais apresenta níveis consideráveis de burnout. Estatisticamente, outros profissionais mais acometidos são os da área de educação, segurança, assistência social e tecnologia/informática.
Apesar de ser uma síndrome relacionada ao trabalho, recentemente descobriu-se que os estudantes também são propensos ao burnout. Principalmente em épocas de vestibular ou durante estudos de ensino superior. Nesse caso, seria um tipo de burnout relacionado não ao trabalho, mas ao estudo intenso e continuado com privação de entretenimento e lazer.

Revista: Como é o tratamento? Precisa de medicação?

Psicologia Para Curiosos: Bem-estar e saúde são essenciais dentro do trabalho, porque é trabalhando que passamos maior parte do nosso tempo de vida. Por isso, nossa qualidade de vida está diretamente relacionada às nossas necessidades no trabalho, como expectativas e satisfações. Então é essencial desconstruirmos a crença de que seremos indivíduos plenamente felizes ou bem-sucedidos em todas as áreas de nossa vida quando tivermos êxito profissional ou que se trabalharmos com aquilo que amamos seremos automaticamente bons nisso.

Além disso, é importante reduzir o nível de estresse ocupacional. Tanto o indivíduo quanto a empresa contratante devem pensar em qualidade de vida e não apenas em produção. Em caso de trabalho autônomo, é essencial manter limites em tempo de trabalho e exigência pessoal. O indivíduo feliz irá produzir mais, por isso é bom que estejamos satisfeitos e saudáveis.

Mas as outras áreas da vida também devem entrar em foco. Praticar atividade física, tirar tempo para se dedicar aos relacionamentos familiares, amorosos ou amizades. Não abrir mão do entretenimento, fazer algo que gosta ao menos uma vez por semana. Ou seja, é importante cuidar da saúde. O físico, o mental e o emocional são bastante interligados e deve-se manter tudo em ordem.

O Acompanhamento psicológico em casos já diagnosticados é essencial e indispensável. Em casos mais extremos pode vir a ser necessário um acompanhamento psiquiátrico com intervenção medicamentosa, como antidepressivos, por exemplo.

 

Revista: Quais são os primeiros sinais?

Psicologia Para Curiosos: O primeiro e mais importante sinal é:  a pessoa consome tudo o que tem em si para se dedicar à vida profissional! Além da dedicação exagerada à vida profissional, há também o grau de desempenho: a auto-estima do acometido acaba variando de acordo com sua capacidade e sucesso profissional. Ele não consegue vivenciar prazer e satisfação enquanto o esforço/desempenho não é reconhecido por outros. Em consequência disso, há uma busca incessante de se afirmar e realizar esse desejo profissional, causando grande desgaste, até se consumir por completo.

Revista: Quais as consequências se não for tratado?

Psicologia Para Curiosos: Conforme a síndrome avança os sintomas vão se agravando, pois o corpo e a mente estão cada vez mais fragilizados. O indivíduo acometido se sente abatido, desesperado, fragilizado e vê o trabalho de forma negativa. O triplo esgotamento que citamos traz alguns sintomas. O esgotamento físico faz com que surjam dores de cabeça, dores na coluna, taquicardia, sudorese e etc. O esgotamento emocional se manifesta através da apatia e de estados depressivos. No início eles podem parecem pequenos, mas podem evoluir até virem a se tornar pensamentos suicidas. Já o esgotamento mental faz com que a pessoa tenha sentimentos de inferioridade e incompetência que podem evoluir para diversos transtornos mais graves.

Revista: Você tem um panorama quanto a frequência de pacientes que a procura por isso? Aumentou nos últimos? Se sim, qual a explicação para tal?

Psicologia Para Curiosos: Muitos dos pacientes que me procuram para atendimento apresentam sintomas de burnout, em diferentes níveis.

Mas é consenso entre os profissionais da saúde e confirmado nos estudos mais recentes que nos últimos anos a quantidade de casos de burnout vem aumentado de forma rápida e as vezes até assustadora. Minha explicação para isso é que, infelizmente, nos dias de hoje o indivíduo é visto e valorizado de acordo com sua colocação profissional. Uma pessoa que tem êxito em uma profissão que é considerada de status passa a imagem de feliz e bem-sucedida. Além disso há o que já citei anteriormente, a tentativa de passar uma ideia de realização profissional. Isso é problemático pois as pessoas acabam buscando incansavelmente o sucesso profissional como uma resolução de todos os problemas. Isso faz com que se desgastem até seus limites, suportando muito sofrimento por acreditar que vai haver uma recompensa. Por isso, o trabalho visto como forma de realização é um fator de risco para a saúde, pois o homem vira uma máquina de produção buscando satisfação, mas descarta aspectos de proteção a própria saúde física, emocional e mental.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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