Antropofagia: O canibalismo entre humanos

O Canibalismo acontece desde muito antes do que possamos imaginar. Ainda assim, é uma das coisas que ainda hoje é obscura para muitos de nós. É difícil entender o que faria alguém praticar um ato tão grotesco. Ainda assim, é um ato que chama muita atenção. Quando surgem casos na mídia, são amplamente divulgados, acompanhados e comentados. Mesmo sem compreender, nós temos uma curiosidade grandiosa sobre esse tema. Por isso hoje resolvi falar um pouco sobre o Canibalismo, para ser mais exata, a antropofagia.

Deficientes visuais e pessoas com pouco tempo para leitura (e qualquer outra pessoa que quiser) podem ouvir o áudio do texto no player abaixo.

O QUE É O CANIBALISMO

O Canibalismo é o ato de um animal comer outro de sua própria espécie. Quando falamos de canibalismo entre humanos, estamos falando de antropofagia.

O primeiro a surgir com esse termo foi Herótodo, historiador grego do século V a.C. A palavra vem do grego “antropos” que significa homem e “paghein” que significa comer. Assim, o significado não poderia ser mais direto: Comer homem. Portanto, esse é o termo apropriado para o ato de um humano comer carne humana.

antropofagia-canibalismo-post-1Claro que falar em Canibalismo também não está errado. Mas esse termo se refere a qualquer espécie se alimentando de outro da mesma espécie, e não unicamente os humanos. O termo Canibal é mais recente, data do século XVI. A história conta que a esquadra de Cristóvão Colombo passou pelas Pequenas Antilhas (atualmente o Caribe). Lá, os índios tinham o hábito de comer carne humana em rituais religiosos que chamavam de “Cariba”, significando para eles corajoso. Porém os europeus não entenderam bem a pronúncia e chamaram o ritual de “caniba”. Não demorou para que a palavra se estendesse a Canibal e descrevesse qualquer cultura ou ato de comer indivíduos da mesma espécie.

            O caso desses índios já levanta a questão cultural do canibalismo. Em muitas culturas a antropofagia é considerada normal, as vezes até um ato de nobreza ou símbolo de vitória sobre o inimigo. Muitas tribos se alimentam dos seus inimigos, num ato conhecido como exofagia (ou exocanibalismo) que significa se alimentar de uma pessoa de outra tribo. Há ainda o endocanibalismo, que é se alimentar do corpo de amigos ou parentes e o canibalismo famélico, que ocorre em situações de escassez de alimento, mas falaremos mais sobre esse último mais adiante. Assim, o canibal é assim considerado ou não a partir de uma inserção contextual e não por si só.

            É claro que em nossa sociedade o canibalismo não é cultural, muito pelo contrário, é repulsivo e incompreensível a nós, visto nossos hábitos. Ainda assim, ocorrem casos de antropofagia de tempos em tempos, casos esses que despertam uma curiosidade imensa no ser humano. A curiosidade é tanta que a notícia é consumida amplamente em toda e qualquer mídia. Pela internet é possível encontrar sites detalhando os casos, na maioria das vezes associados a conteúdos de temática sexual, com um número grandioso de acessos de internautas por todo o mundo.

            Mas se isso é tão repugnante para nós, por que nós atraímos tanto por esse tema? É isso que vamos entender ao final desse post.

Canibalismo Famélico: o canibalismo aceitávelantropofagia-canibalismo-post-2

Historicamente falando, há algumas situações que fazem o canibalismo ser “aceito”, mesmo em nossa sociedade, sendo normalmente ocasiões de vida ou morte. Um dos casos é em épocas de escassez de alimentos, como em guerras, por exemplo, onde um indivíduo se alimenta de um igual já morto para que não venha a falecer também. Esse é o canibalismo famélico que citei mais cedo, e já foram registrados casos assim na Guerra dos Trinta anos e na Segunda Guerra Mundial. A lógica nesses casos é bastante clara e não houve o assassinato com a intenção final de se alimentar. Por isso, mesmo que não seja agradável, é uma situação aceitável para nós.

            Outro caso famoso de canibalismo famélico é o retratado no filme com base verídica “Vivos”, que fala sobre a queda de um avião nos Andes, em 1972. Os sobreviventes tiveram que se alimentar dos corpos daqueles que não haviam sobrevivido à queda. Só assim conseguiram manter-se vivos e puderam ser resgatados depois de 69 dias. Assim como no caso das guerras, é um caso aceito por não haver a atração da vítima para um local com a intenção de cometer seu assassinato e muito menos houve a degustação da carne por prazer ou para fins místicos.

            Isso nos mostra que indivíduos psiquicamente saudáveis, quando colocados em situações extremas, podem agir de forma que em outras condições consideraríamos dantesco e patológico. Mas é claro que na grande maioria dos casos de antropofagia há a presença de uma patologia mental, muitas vezes severa.

A Antropofagia Patológica

Já que citei dois casos de canibalismo famélico, vou citar também dois casos, famosos, de antropofagia patológica.

O primeiro caso, mais antigo, aconteceu em 2001. O técnico de informática alemão, Armin Weives, colocou na internet um anúncio procurando por pessoas que quisessem ser mortas e devoradas. Incrivelmente uma pessoa respondeu a esse anúncio. Bernd Juergen Brandes, engenheiro, se mostrou disposto a participar do ritual. Quando se encontraram, decidiram iniciar pelo pênis de Brandes, que foi amputado, flambado e degustado pelos dois homens juntos, como em um jantar romântico, enquanto toda a cena era filmada. Depois disso Weives assassinou Brandes, o esquartejou e guardou a carne, com a qual se alimentou pelos dias seguintes. Esse caso teve uma repercussão enorme e um julgamento difícil, uma vez que a vítima havia concordado com o ato. Mesmo assim, o canibal do caso foi condenado à prisão perpétua 5 anos depois. Weives, que ficou mundialmente conhecido como O Canibal de Rotembrugo, confessou ter praticado o crime por motivações sexuais.

O segundo caso é mais recente e mais próximo de nós. Em 2012, aqui no Brasil, foram descobertos um grupo de 3 criminosos que atraíam as vítimas, assassinavam-nas, comiam sua carne e usavam o que sobrasse para fazer empadas, que eram vendidas em locais movimentados da cidade. O caso ficou conhecido como Os Canibais de Garanhuns (PE).

            Participavam do grupo Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, que era líder do grupo e o responsável pela execução das vítimas; Isabel Cristina Pires, esposa de Jorge há 30 anos, atraia as vítimas e preparava/vendia os salgados recheados de carne humana; e Bruna Cristina Oliveira da Silva, amante de Jorge, que morava com ele e sua esposa desde sua adolescência, sendo o triangulo amoroso do conhecimento dos 3 envolvidos.

            Segundo a polícia, o grupo afirmava comer a carne por acreditarem que se tratava de um ritual de purificação, onde a vítima em seus últimos momentos de vida se arrependia de seus pecados e eles ingeriam essa carne purificada. Diziam que isso fazia parte de uma seita, que pregava a purificação do mundo e o controle populacional. Para isso eles deviam matar 3 mulheres por ano, já que essas mulheres teriam “úteros malditos que geravam filhos”. Assim, cada assassinato era chamado de missão e eles diziam estar fazendo uma limpeza humanitária.

            antropofagia-canibalismo-post-3Eles atraíam as vítimas com ofertas de emprego de altos salários, e além de assassinar a vítima, comer sua carne e vender salgados recheados dessa carne, eles também obrigavam uma criança a comer a carne humana. A menina era filha da primeira vítima do trio (na época com 2 anos). Eles teriam ficado com ela por que Isabel sempre quis uma menina, e porque a criança representava a pureza e inocência que eles buscavam. A menina, foi obrigada a comer a carne de sua própria mãe e de todas as outras vítimas depois dela. Na época em que o trio foi preso, a menina já tinha 5 anos e foi entregue à sua família.

            O Casal já tinha feito, muitos anos antes, filmes caseiros que representavam esse tipo de interesse. Em um desses filmes Jorge mutila uma pessoa, mata-a e depois come sua carne, como viria a acontecer anos depois.

            Apesar de surgirem casos por aí, o Canibalismo não é tão comum, por isso não existe na legislação uma lei específica para caracterizar isso como crime. Por isso o comportamento tem que ser enquadrado em outros crimes, como foi o caso dos Canibais de Garanhuns, que foram acusados de homicídios triplamente qualificados, falsidade ideológica (Bruna havia assumido a identidade de Jéssica, a primeira vítima), estelionato, ocultação de cadáver e falsificação de documentos.

            Outra questão é que a defesa do canibal muitas vezes alega insanidade mental, deixando, nesse caso, a pessoa inimputável, pois não possuía o desenvolvimento mental necessário para ter consciência da consequência de seus atos. Foi isso que fez Jorge Beltrão, que afirmou ser esquizofrênico em sua defesa, dizendo que vozes haviam dito para que ele praticasse os crimes.

            Algumas pessoas compreendem Jorge como realmente esquizofrênico e outras como perverso. Mas o que é consenso é que ele e suas parceiras não tinham condições de conviver em sociedade.

Interpretações e hipóteses

            Agora vem a parte difícil desse post, que é tentar explicar a possível motivação de um canibal. Lembrando que tudo o que eu disser aqui são apenas hipóteses e que a motivação pode variar de caso a caso. Além disso, é difícil fazer uma análise e diagnóstico sem realmente conhecer o paciente.

            A primeira hipótese é a que o próprio Jorge sustenta em sua defesa: a esquizofrenia. Um esquizofrênico sem tratamento adequado tem um risco maior de cometer um crime grave, mas isso não quer dizer que toda pessoa esquizofrênica é criminosa. Mas vamos imaginar que uma pessoa esquizofrênica tenha cometido um crime como esse, por que?

            Acontece que durante uma fase de surto agudo, o paciente esquizofrênico pode ter a sensação de “se dissolver”, perder o próprio corpo e/ou o controle dele. O ato canibal pode, num caso como esse, ser entendido como uma tentativa de ter de volta o próprio corpo. Outra hipótese é que o indivíduo esquizofrênico esteja sofrendo de alucinações auditivas e persecutórias. Assim, sente-se perseguido, ameaçado e ouve vozes ou forças que o fazem acreditar que ao se alimentar de carne humana se tornará imortal ou acabará com esse mal.

           antropofagia-canibalismo-post-4 Esse último caso é o que Jorge alega se encaixar em seu perfil. Diz ter ouvido vozes e isso é constantemente repetido no livro que escreveu: “Revelações de um Esquizofrênico”. No livro o autor diz que é um esquizofrênico paranoide, mas muitos discordam dessa colocação. Na esquizofrenia paranoide a pessoa tem surtos, ouve ordens que o mandam realizar alguma ação predatória em caráter de urgência. Depois que o surto passa, a pessoa tem dificuldade de se relacionar socialmente.  Quando vemos Jorge, o canibal de Garanhuns, esse não parece o diagnóstico correto. Ele não tinha emergência em suas ações, que eram planejadas e só depois da vítima conquistada ele a matava, sua vida relacional e social não parecia empobrecida e há o discernimento de fazer compras com os cartões de crédito das vítimas, usar o nome a identidade delas. Ou seja, ele realizava ações criminosas e relacionadas às vítimas em um momento de “consciência”, sem estar em um surto.

            Preciso reforçar que os atos de canibalismo são exceções entre indivíduos esquizofrênicos em surto. Nos casos em que isso realmente aconteceu, o indivíduo foi julgado e considerado inimputável, sendo encaminhado para uma clínica psiquiátrica sob custódia da justiça. Isso nos dá uma boa ideia do motivo de a defesa do Canibal de Garanhuns ter usado esse argumento.

            Portanto, esse caso de canibalismo parece estar mais associado a um transtorno de personalidade e perversão de natureza sádica. Nesse enquadre, uma possível motivação pode ser um problema no processo de individuação. Isso é, quando a criança se percebe como indivíduo, quando se “separa” do corpo da mãe e passa a ter seu próprio corpo (em sua compreensão). Portanto, ingerir a carne humana poderia ser uma forma simbólica de restabelecer essa ligação simbiótica, íntima, que foi rompida.

            Não posso deixar de citar a oralidade. Na teoria de Freud, a organização psicossexual do humano se desenvolve em fases. A primeira delas é a fase oral, em que o prazer da criança está centrado em sua boca, há muito prazer em sugar, ingerir, engolir. Um discípulo de Freud, Karl Abraham, foi muito feliz ao chamar essa fase de “canibalesca”, que nos ajuda a compreender o significado dessa associação dos canibais com a fase oral. Essa fase a que nos referimos tem como base a fantasia de incorporação do outro. Nesse sentido, através da antropofagia o indivíduo estaria realizando essa fantasia.

            Se pensarmos na teoria de Melanie Klein, temos ainda outra explicação. Para Klein, no começo da vida, todas as pessoas possuem impulsos destrutivos. Na fase oral, se a criança não obtiver prazer ao sugar, tentará morder para satisfazer esse prazer. Assim, o seio da mãe é um objeto que proporciona prazer e é alvo de amor e ódio. Amor porque alimenta o bebe e lhe dá prazer e ódio da mãe por interromper a amamentação e guardar o seio. É claro que conforme o desenvolvimento se dá a criança vai elaborando esses sentimentos, mas isso não acontece muito bem para os canibais. O conflito de separação da mãe, do afastamento do seio, faz ela entender a mãe como uma mãe má, mas ao mesmo tempo desejar aquele seio. Por isso, no ato de comer o corpo do outro está, simbolicamente, uma forma de acabar com esse mal e ao mesmo tempo acabar com a separação indesejada do objeto de amor.

            Por último, devo citar a questão de apoderamento. É uma compreensão muito primitiva, mas como eu já disse, alguns canibais praticam esse ato por acreditar que ao comer o outro ganhará a força, poder, inteligência e/ou juventude da vítima.

Por que nos interessamos tanto por esse assunto?

Nenhum de nós “escapa” dessa fase do desenvolvimento de constituição da identidade, de separação do objeto amado. Isso fica remanescente em nós. Prova disso é que a antropofagia, muitas vezes, faz parte do nosso repertório de comportamentos afetivos sexuais. Atos como beijar, morder e chupar são trocas de carinho, expressam a proximidade emocional e o desejo de ter o outro (simbolicamente) dentro de si. Isso é tão espontâneo que é comum em conversas as pessoas dizerem que uma pessoa é “gostosa” ou falar sobre “comer” o outro. Essa fantasia de devorar e ser devorado é encontrada em diversas produções culturais, e até em fábulas e brincadeiras de crianças e adultos. Exemplos clássicos são o lobo mau, que come a vovozinha e a música “eu te devoro”, do Djavan.

            O ato de realmente comer a carne humana é a concretização dessas fantasias sexuais sádicas. Todos temos, mesmo que inconscientemente, fantasias sexuais que podem ser consideradas sádicas, mas, diferente dos canibais, nós nos satisfazemos no âmbito da fantasia e na curiosidade de saber mais sobre casos de antropofagia através da mídia.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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