Alotriofagia: comer estranho

Cada vez mais estamos preocupados com a qualidade e riqueza dos nutrientes que ingerimos. Isso pode até ser um problema se em excesso, como já explicamos nesse post sobre a ortorexia. Mas, contrário a isso, existe um transtorno alimentar em que a pessoa tem grande apetite por substâncias não nutritivas. Veja bem, não é com baixo teor nutritivo, são substâncias NÃO nutritivas. Como terra, carvão, tecidos e etc. Estamos falando da Alotriofagia, ou Síndrome de Pica.

ALOTRIOFAGIA

            A palavra alotriofagia significa “comer estranho”, é uma junção de “alotrio”, que significa estranho, e “fagia”, que significa comer.  A doença é conhecida também como Síndrome de Pica, fazendo referência a um pássaro, da família dos corvos, que é conhecido por comer tudo e qualquer coisa que encontra pela frente.

            alotriofagia-post-3Essa condição, apesar de rara, acontece e é bastante grave. Porém, para que seja considerado alotriofagia, esses atos devem permanecer por mais de um mês. Além disso, a doença é mais comum em crianças, mas deve receber mais atenção em idades em que comer objetos estranhos é considerado inapropriado para o desenvolvimento mental em questão.

            A Síndrome de Pica é dividida de acordo com o material que é consumido pelo adoentado. Dentre muitas, as mais conhecidas são:

  • Acufagia Comer objetos pontudos (como agulhas, pregos e etc)
  • AutoCanibalismo Comer partes do próprio corpo
  • Cautopireiofagia Comer palitos de fósforo depois de apagarem
  • Coniofagia Comer pó
  • Coprofagia Comer fezes
  • Ctonofagia Comer terra ou argila
  • Emetofagia → Comer vômito
  • Geofagia Comer terra ou solo
  • Hematofagia → Comer sangue
  • Hialofagia Comer vidro
  • Lithofagia Comer pedras ou pedregulhos
  • Pagofagia Comer gelo
  • Trichofagia Comer cabelo, lã ou outros tecidos
  • Urofagia Tomar urina
  • Xilofagia Comer madeira

QUAL É A GRAVIDADE DESSA CONDIÇÃO?

            O perigo primário é que a síndrome de Pica pode levar facilmente á uma intoxicação.alotriofagia-post-1 Isso pode resultar em prejuízos físicos e mentais. Além de, em casos mais graves, serem necessários cirurgias de emergência de bastante risco, por causa da obstrução intestinal, ou seja, o corpo não consegue digerir o objeto ingerido e então é necessário removê-lo cirurgicamente. Há ainda o perigo de a pessoa apresentar déficits nutricionais importantes ou uma parasitose.

            Esses são só os perigoso físicos, mas a questão emocional e mental também é preocupante. A condição mostra que a pessoa está com problemas emocionais e psíquicos graves, que devem receber a devida atenção com urgência.

O QUE CAUSA ISSO?

            A Alotriofagia pode ser desencadeada por má nutrição. A falta de ferro ou zinco pode fazer com que o paciente busque ingerir esses nutrientes de forma extrema. Porém, alimentar-se de um tijolo não aumenta os níveis de ferro. O ideal é procurar um médico que faça essa suplementação de forma saudável.

           alotriofagia-post-2 A síndrome é mais comum em grávidas e crianças, então essa camada deve estar atenta. Isso porquê a criança não tem noção do que é certo ou errado na alimentação, e a gravida tem desejos intensos advindos da necessidade do seu corpo por nutrientes extras. Em alguns lugares a cultura também influência bastante, na África, por exemplo, algumas mulheres acreditam que ingerir terra e argila ajuda na fertilidade e na reprodução. Há ainda casos registrados de grávidas que comeram santinhos feitos de barro a fim de abençoarem seus bebês.

            Depressão também está intimamente associada à alotriofagia. Problemas emocionais e desencadeadores de estresse também podem ser fatores de risco. As pessoas que apresentam a síndrome normalmente tem histórico de problemas familiares, negligência dos pais, estrutura familiar transtornada, orfandade e etc.

E O TRATAMENTO?

            O diagnóstico desse transtorno costuma ser muito difícil, pois o paciente esconde esses hábitos de amigos e familiares e normalmente se recusa a relatar ao médico seus costumes alimentares. Por isso os familiares e amigos devem ficar atentos e procurar ajuda profissional em caso de suspeita.

            O tratamento varia de paciente para paciente, pois se leva em conta o que ele ingere e o que o levou a ter esse hábito. Mas deve envolver um psicólogo para compreender o que levou o paciente a fazer isso, um médico que verifique seu estado de saúde e um médico especialista em nutrição ou nutricionista para suprir as necessidades proteicas e nutritivas do paciente.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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