Aborto espontâneo: consequências emocionais

O aborto espontâneo é o fim acidental de uma gravidez em gestação. Suas causas são diversas, podendo ser orgânicas ou até emocionais. Mas, independentemente da causa, a vivência do aborto em si traz sofrimento intenso para a mãe (e pai). Depois de vivenciar isso, muitas mulheres sentem dificuldade de seguir em frente e planejar outra gravidez. Hoje falarei de como essa experiência é vivida pela mulher, suas consequências emocionais e como lidar com isso.

Nota: Não estou falando aqui nesse post sobre o aborto induzido ou sobre a legalização ou não deste. Fala-se sobre o aborto espontâneo ocorrido durante uma gestação desejada. Também não desconsidero o sofrimento do parceiro em nenhum momento, apenas há maior foco na vivência da mulher para conversarmos sobre como isso é vivenciado e as consequências psicológicas que esse evento causa.

Aborto Espontâneo

Apesar de o assunto ser um tabu e pouco se falar sobre isso, o aborto espontâneo é uma intercorrência comum, que atinge de 10% a 25% das mulheres em gestação.

aborto-espontaneo-post-5A palavra tem uma conotação bastante negativa, vem do latim “oriri”, que é ascender, nascer. Mais o prefixo “ab”, de negação: “aboriri”, que significa não nascer ou afastar-se da vida. Assim, o aborto é uma negação a vida, uma morte antecipada. A conotação negativa também é histórica, em sociedades primitivas o aborto era entendido como uma punição à mulher que teve um comportamento indevido, seja por influência de maus espíritos ou pela gravidez ter se originado em condições violentas, como abuso. Em casos assim, eles faziam rituais extremamente violentos que podiam causar até a morte da mulher que abortou.

Há, ainda hoje, atrelada a maternidade a ideia de que, para os pais, é uma forma de se eternizar, se imortalizar através do ato reprodutivo. Além disso, nossa sociedade costuma, desde os primórdios, divinizar a maternidade, ligá-la a concepção de uma mulher como mulher. Isso é uma ideia mitológica muito antiga, de que a grande deusa é mãe, que produz formas, gera a vida e alimenta. As figuras de grandes mulheres, deusas, vinham em conjunto com a lembrança de que ela é mãe. Como a Deusa Ísis, por exemplo, representada com seu filho Hórus nos braços. As religiões reforçam isso até os dias de hoje com suas figuras segurando seus filhos (como a Virgem Maria, por exemplo).

Esse conjunto de fatores é responsável pela naturalização da maternidade. Implica-se que o normal para uma mulher é ser mãe, então as que são impedidas desse ato são anormais? Ou seja, há uma crença de que a mulher tem a obrigação de desejar um filho, de ser mãe, e só se sentirá completa quando o for. Isso cria um ambiente de maior sofrimento e reações emocionais muito intensas quando a tentativa de maternidade é frustrada.

A vivência do aborto espontâneoaborto-espontaneo-post-1

         Uma vivência de aborto espontâneo deixa a mulher profundamente abalada. Junto com o bebê morre uma parte de mãe, morre um amor idealizado, um amor que foi tão esperado e fantasiado. Morre a possibilidade de se eternizar e de mostrar à sociedade sua competência como mulher-mãe. É claro que a mulher não pensa tudo isso de forma clara assim, são processos e impactos que ocorrem internamente. Mas uma coisa é sentida pela mulher, a dor. Não a dor física, essa passa eventualmente, mas as dores emocionais. O bebê ainda na barriga é considerado parte da mãe, os carinhos e afetos são direcionados à barriga, que representa ao mesmo tempo a mãe e o bebê. Perder ele abre um buraco, uma ferida, uma profunda ferida narcísica.

            Depois de passar por isso a grávida, que esperava um bebê idealizado, volta para casa sem ele em seus braços e passa a conviver com essa falta. Isso pode gerar sentimento de incompetência, vergonha, tristeza, e medo de nunca conseguir gerar uma vida ou um filho perfeito. Isso, obviamente, afeta intensamente a autoestima da mulher, que passa a se afastar, não deixar que os outros partilhem sua dor, por achar que foi incapaz de proporcionar a alegria de um novo bebê aos familiares.

            O luto vivenciado em caso de aborto é um dos mais difíceis de serem elaborados. O luto tem a função de definir a perda como algo real, que não poderá ser recuperado. É importante que o enlutado compreenda isso para lidar com o sofrimento. No caso do aborto espontâneo, o afastamento do concreto e da realidade dificultam essa compreensão. Isso porque de um ponto de vista objetivo e social, não há nada pelo que se enlutar. Não existe um corpo ou sequer um documento que prove a vida daquela criança. É como um grande projeto que foi cancelado. E a dor do luto é direcionada a um objeto que para a mãe é extremamente real, concreto, mas ao mesmo tempo muito irreal, abstrato, por “nunca ter existido” concretamente.

            Por não conseguir elaborar esse luto, é comum que mulheres que sofreram aborto não consigam pensar em novos filhos, planejar, engravidar ou sequer investir seu amor no pensamento de ter uma nova criança. Mesmo em casos onde o casal desejava intensamente ter um filho.

Consequências emocionais

            Por causa dessas complicações, pode-se dizer que o luto de um aborto espontâneo é um enlutamento melancólico. Vou explicar o que isso significa.

            aborto-espontaneo-post-2O luto é a reação natural diante da perda de um ente querido, é um sofrimento não patológico que costuma ser resolvido naturalmente pelo organismo, que se adapta a perda. A melancolia, por sua vez, é patológica. Ela apresenta sintomas de desânimo, falta de interesse em atividades antes interessantes, perda da capacidade de amar, diminuição da autoestima e até desejo de autopunição.  Já no caso da vivência do aborto espontâneo, o que acontece é algo entre esses dois. Há o luto, mas com muitos danos a autoestima. Por isso podemos chamar esse processo de enlutamento melancólico.

            Durante esse processo de luto, é normal haver momentos em que há sentimento de culpa, de raiva, tristeza ou de hostilidade. Porém, quando a mulher é incapaz de aceitar o ocorrido esse luto se complica ainda mais. Quando há uma negação da perda (a incapacidade de aceitar) os sintomas são adiados por serem insuportáveis, mas persistem. Quando mais tempo esse conteúdo for reprimido, mais fortes os sintomas virão quando estourarem, causando sintomas adicionais e podendo levar a depressão.

            Com tudo isso, a autoconfiança é abalada e começam a surgir outros medos, o de perder o parceiro, familiares, perder a saúde, perder o amor e não receber carinho. O pior de tudo é que com essa falta de confiança a mulher não se permite melhorar. Acredita que ao superar vai estar esquecendo seu filho, “traindo-o”, de certa forma. Obviamente, esse tipo de pensamento dificulta muito a melhora e a possibilidade de se envolver emocionalmente com um futuro filho.aborto-espontaneo-post-4

         Estou aqui falando da mãe por ser ela que passa pelo evento físico da gestação e do aborto. Mas é bastante óbvio que o pai também sofre muito com esse processo. Porém, no geral, o enlutamento paterno se dá de maneira diferente. O homem costuma se sentir confuso, tem resistência em acreditar no que está acontecendo. Há reações de tristeza, frustração, raiva e em alguns casos há até mesmo culpa referente às relações sexuais ocorridas durante a gravidez. O complicado disso é que a mulher fragilizada pode interpretar erroneamente a reação de seu parceiro e vivenciar isso como falta de apoio. Isso contribui para a sensação de solidão e desvalorização que ambos sentem.

            Portanto é importante manter em mente que, por mais que a mulher e o homem pareçam bem, é só como mecanismo de defesa. É necessário conversar sobre isso para elaborar.

Como lidar com isso?

            A vivência é traumática e gera dor, angústia e sofrimento. O principal é se permitir passar por isso, ao invés de reprimir ou adiar esperando que uma hora melhore. É preciso haver um espaço para a vivência do enlutamento, isso irá facilitar a elaboração e superação. A mulher que não passar pela angústia não conseguirá sustentar novamente o desejo de ter um filho.

            É necessário prestar apoio à mulher que passou pelo aborto espontâneo. Se ela não se sente apoiada, nesse momento de fragilidade, ela pode vivenciar um desamparo extremo e se colocar em perigo.

            aborto-espontaneo-post-3É essencial que aqueles que sabem da perda tomem cuidado com suas falas e ações. Falar pouco sobre assunto achando que isso vai evitar sofrimento é um grande erro. Isso desencoraja a mulher a expressar seus sentimentos (e consequentemente compreendê-los). Além de aumentar a dor e a carga do ocorrido ao ver que os outros ficam desconfortáveis falando sobre o tema. Outro erro grave está atrelado a algumas falas comuns que são ditas com a melhor das intenções, mas reduzindo o sofrimento da mãe a algo banal. Por isso, falas como “foi melhor assim”, “logo você engravida de novo”, ou “antes agora do que depois de nascer”, devem ser evitadas.

            As pessoas que convivem com a mãe devem incentivá-la sempre que possível a falar sobre o ocorrido. É essencial que a mulher converse sobre o assunto, elabore, ressignifique ele. Por isso é importante que os pais que passaram por isso tenham acompanhamento terapêutico. Falar sobre o tema o torna mais real e ajuda a aceitação a ocorrer. Além disso, a análise vai ajudar eles a se reestruturarem como indivíduos. E isso permitirá que eles sigam em frente e invistam em uma nova gravidez no futuro. É possível ainda que seja necessário o acompanhamento terapêutico quando ocorrer essa próxima gravidez, para facilitar o processo que pode reavivar algumas feridas.

            O tempo se faz necessário. O aborto é uma profunda dor narcísica, mas não é irreparável. Com o devido suporte e tempo a mulher pode lidar melhor com o ocorrido, o que será melhor não só para ela, mas para toda a família. Porém, é crucial manter em mente que a pessoa não voltará a ser a mesma. Um processo de luto como esse traz uma infinidade de novas concepções e significados acerca da vida. Isso não significa que haverá prejuízo ou que será uma mudança negativa, apenas que as coisas serão vistas de outra maneira depois de passar por isso. Aceitar que um incidente como esse muda a pessoa e que ela não voltará a ser como era antes é de grande “economia emocional”.

 

Referências

ASSUNÇÃO, Aline Taborda; TOCCI, Heloísa Antonia. Repercussão emocional do aborto espontâneo. Revista de Enfermagem UNISA, v. 4, p. 5-12, 2003.

FREIRE, Teresa Cristina G.; CHATELARD, Daniela S. O aborto é uma dor narcísica irreparável?. Revista Mal Estar e Subjetividade, v. 9, n. 3, p. 1007-1022, 2009.

OLIVEIRA, Cecília Casali. O luto pela criança que não nasceu. Psicologia em reprodução assistida: experiências brasileiras, p. 207-220, 2006.

TACHIBANA, Miriam et al. Rabiscando desenhos-estórias: encontros terapêuticos com mulheres que sofreram aborto espontâneo. 2006.

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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