A busca pelo corpo ideal e o surgimento de um novo transtorno: a Vigorexia

Além da forte imposição social do corpo ideal e da crença de que um corpo dentro dos padrões sociais é sinônimo de felicidade e sucesso, dois avanços positivos em nossa sociedade vêm trazendo alguns malefícios quando unidos. O primeiro é a tecnologia, que permite que tenhamos acesso e compartilhamento imediato a todo tipo de informação, facilitando a disseminação do conhecimento. O outro é a quantidade de estudos e avanços na área da saúde nutricional e física. Esse combo e a pressão da sociedade para o corpo perfeito criaram um novo transtorno alimentar: a Vigorexia.

 

A VIGOREXIA

Inicialmente chamado de Síndrome de Adônis (referência ao mito do homem tão atraente que até mesmo a deusa da beleza se apaixonou a primeira vista), a Vigorexia é um transtorno caracterizado pela insatisfação constante com a forma, força e vigor do corpo, levando a prática exaustiva de exercícios físicos, dietas radicais e uso abusivo de esteroides anabolizantes, óleos e outras drogas. Mostra-se um transtorno grave que pede atenção, pois pode gerar danos ao organismo e à parte psicológica do indivíduo.

Com o passar do tempo, a vigorexia pode gerar consequências danosas ao organismo, como insuficiência renal ou hepática e problemas de circulação sanguínea. Se houver abuso do uso de anabolizantes, pode haver doenças cardiovasculares envolvidas, câncer de próstata e diminuição do tecido testicular. Isso tudo além de depressão, ansiedade, agressividade e outros transtornos psicológicos relacionados.

 VigorexiaAs pessoas que sofrem com esse transtorno apresentam distorção da imagem corporal, ou seja, se enxergam como fracas e pequenas, mesmo quando apresentam musculatura desenvolvida acima da média. Em alguns casos o acometido chega a não praticar nenhum tipo de exercício aeróbico com medo de perder a massa muscular obtida em sessões extremas de força e levantamento de peso. Há a utilização excessiva e irresponsável de drogas para ganho de massa e inclusive a aplicação de óleos ou próteses de silicone para aumentar o volume muscular rapidamente. É importante lembrarmos que além de perigosos esses produtos apenas aumentam o volume do músculo, sem aumentar realmente o tecido ou a força. Isso nos mostra ainda mais que esse transtorno é derivado de uma busca pelo padrão de beleza e não por saúde.

Esse transtorno ocorre mais em homens jovens, entre os 18 e 35 anos, mas é cada vez mais comum em mulheres.

 

            O QUE ESTÁ CAUSANDO ISSO?

Como dissemos no início do texto, há atualmente um grande número de estudos sobreVigorexia nutrição, esporte e saúde do corpo. Isso é ótimo, para que os profissionais possam aperfeiçoar suas capacidade e intervir com mais qualidade. Mas há também a facilidade de acesso a esses estudos e reprodução do que foi compreendido daquilo, e é aí que mora o problema.

Vivemos em uma sociedade que exerce forte pressão sobre qual deve ser a estrutura corporal tanto do homem quanto da mulher. Esse padrão seria o corpo magro e músculos cada vez mais desenvolvidos. Muitas vezes em níveis não naturais, que só podem ser alcançados com uso de anabolizantes e dietas extremas.

Além disso, a imagem corporal hoje em dia está muito relacionada à autoestima. Isso porque a mídia traz a ideia de que ter o corpo que a sociedade considera ideal é expressão de sucesso e felicidade. Assim, as pessoas buscam intensamente alcançar esse corpo quase impossível, pois acreditam que assim serão felizes e bem sucedidas.

Assim, nossa cultura e sociedade produzem uma manifestação do que é estético e deve ser almejado, sendo esse padrão muito rígido. Isso gera um sintoma coletivo que está presente em todos os ambientes. Os assuntos relacionados à dietas, aparência física, exercício físico e métodos utilizados nos cercam por todos os lados. No trabalho, em festas, em escolas (inclusive crianças muito novas apresentam essa preocupação) e também na internet.

VigorexiaÉ nesse ponto que retomamos nosso pensamento de que o acesso facilitado e reprodução irrestrita de uma interpretação pessoal são problemáticos. Apesar de haver um crescente interesse nessa área de nutrição e esportes, há ainda níveis altos de despreparo e desinformação. Qualquer pessoa pode repassar a informação de forma irresponsável e atingir diversas outras pessoas, sem auxílio profissional. Alguns estudos apontam que mais de 80% das pessoas que fazem uso excessivo de dietas, exercícios físicos, suplementos e drogas não tem nenhum tipo de acompanhamento profissional. Isso é muito grave! Há ainda o surgimento das blogueiras(os) e musas(os) fitness, que muitas vezes são pessoas despreparadas e sem qualquer qualificação profissional que alcançam milhares de pessoas e reforçam esse comportamento altamente prejudicial.

Claro que sabemos da importância de manter um corpo e uma dieta saudável. Mas isso deve ser feito com acompanhamento de um médico, nutricionista e um treinador físico, para evitar o desenvolvimento de transtornos como a Vigorexia, que podem sim levar a óbito em casos extremos.

 

O TRATAMENTO

O tratamento se mostra bastante complicado, visto que os indivíduos com Vigorexia dificilmente procuram tratamento, pois tem medo que através dos métodos propostos perderão massa muscular.

Como é uma doença que engloba diversas áreas, o ideal é que o tratamento tenha uma equipe multiprofissional composta por médico, psicoterapia, nutricionista e treinador físico. Mas o tratamento é possível e deve-se SIM procurar ajuda profissional o mais brevemente possível.

Além disso, é necessário capacitar profissionais para o sucesso do tratamento, visando o bem estar físico e mental dos acometidos. Além de informar orientar o grupo de risco para o desenvolvimento de distúrbios alimentares.

 

 

REFERÊNCIAS

CAMARGO, Tatiana Pimentel Pires de et al. Vigorexia: revisão dos aspectos atuais deste distúrbio de imagem corporal. Rev. bras. psicol. esporte,  São Paulo,  v. 2, n. 1, jun.  2008.

 

Sobre a autora

Priscilla Figueiredo

Priscilla Figueiredo é Psicóloga de orientação Psicanalítica graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atua na área da saúde como psicóloga clínica. Para disseminar seu conhecimento, criou o Psicologia Para Curiosos e escreve artigos regularmente aqui no site.

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